Dissecar o Vazio em 15 Segundos
Abrir uma rede social hoje é entrar num matadouro de atenção. O que nos vendem como banquete é uma vitrina de plásticos vibrantes, uma merda qualquer desenhada para enganar o estômago enquanto a alma definha. Fazemos o scroll com a inércia de quem mastiga pastilha elástica, há movimento, mas não há nutrição. Estamos na era do “Conteúdo“, essa palavra estéril, técnica, que servia para descrever o que ia dentro das caixas de cartão e que hoje é usada para enterrar a arte. Um disco, uma performance num armazém, ou o grito de uma guitarra num festival de garagem… tudo reduzido a combustível para alimentar algoritmos famintos. A arte foi desossada para caber no feed.
O artista é agora um elo quebrado. Já não lhe basta criar, a ditadura da visibilidade obriga-o a ser gestor de expectativas, editor de reels & stories, um refém da métrica que mendiga segundos de atenção. Há uma pressão do caralho para que a obra seja “partilhável” antes de ser “sentida“.
E desse lado, do lado de quem vê, a experiência tornou-se uma anatomia de fachadas. Consome-se o registo antes da nota, valida-se o momento pelo ângulo da fotografia. A essência da obra; aquilo que nos devia ferir, desassossegar ou elevar; morre na berma da estrada, atropelada pela puta da urgência da próxima notificação de merda. Estamos a colecionar troféus de momentos que nunca chegámos a habitar.
Sabemos o cartaz de cor, mas não conhecemos o fôlego da obra. Vivemos “por dentro” da cena, mas não sentimos o som de merda nenhuma. O excesso de luz cegou-nos para as nuances, o ruído das promoções impediu-nos de ouvir o silêncio que a criação exige para respirar.
Este desassossego não é falta de interesse. É o cansaço de uma dieta de 15 segundos que não nutre nada. É a vontade de mandar a saturação dos feeds para o caralho e voltar à anatomia da cultura.
O desassossego não é um estado de espírito, é um sintoma de intoxicação. Estamos empanturrados de nada. O excesso de informação é o novo silêncio, mas um silêncio sujo, que não deixa espaço para a dúvida ou para o espanto.
O que resta quando a bateria morre? Se o que sentes se apaga com o ecrã, então nunca foi arte, foi apenas processamento de dados.
A cultura não se mede por presenças ou por “eu estive lá“. A cultura mede-se pela cicatriz que a obra deixa quando tudo o resto desaparece. É o eco que persiste no vazio. É a ferida que não fecha com um refresh.
Se não fere, se não exige tempo, se não te rouba o chão, é apenas ruído de fundo num matadouro de almas.
*Imagem de capa criada com IA
