Depois de algumas colaborações e cumplicidades em palco, os músicos e compositores André Barros e Tiago Ferreira juntaram as suas quatro mãos nos vários pianos, teclados e outros instrumentos inusitados, disponíveis no Sundlaugin Studio e criaram “Afloat“, lançamento com selo da Omnichord.

A música tem múltiplos estilos e géneros, diferentes formas e fórmulas, distintas naturezas e raízes, há ainda correntes e tendências e, claro, depois há o nervo, a veia e o carácter. “Afloat” é uma distinta e surpreendente experiência que demonstra como um disco pode ir do neoclássico ao indie, carregado de identidade e personalidade, fazendo com que rótulos ou definições sejam pouco mais que indicações.
A curiosidade por compreender melhor sobre como surgiu esta refinada peça denominada “Afloat“, levou-me a desafiar o André Barros para uma breve entrevista:

André Barros & Tiago Ferreira © Idalécio Francisco
André Barros & Tiago Ferreira © Idalécio Francisco

(…) não houve uma premeditação na composição deste trabalho, antes um fluir natural do nosso ímpeto criativo (…)

André Barros

Irreversível – Olá, muito obrigado pela disponibilidade para esta conversa e parabéns pelo novo “Afloat”. De que forma surgiu esta parceria com o Tiago Ferreira?
André Barros – E nós agradecemos o interesse e apoio na divulgação do nosso trabalho! Gratos ainda pelas palavras de apreço. Conheço o Tiago Ferreira há cerca de dez anos, sendo que nos juntámos em concerto – pelas primeiras vezes – imediatamente nos anos seguintes a ter editado o meu primeiro álbum de estúdio (Circustances, 2013). Sinto que começámos a compor em conjunto logo desde essa altura, tal era a química e amizade que desenvolvemos ao piano, o que significa que este “Afloat” começou nesse momento; e isto porque este álbum que agora gravámos é o materializar de todas as composições em que trabalhámos, até aos dias de hoje. “Afloat” surge, assim, da inevitável e prolífica confraternização junto de um instrumento que tanto prezamos, no decurso de uma década de amizade e convívio.

Irreversível – Como foi a experiência de ir até Reykjavík e gravar o disco no Sundlaugin Studio?
André Barros – Eu estagiei, no Verão de 2012, no estúdio Sundlaugin (que, traduzido do islandês, significa “piscina”), na sequência do meu curso de Criação e Produção Musical, leccionado na ETIC, Lisboa. Este estúdio, que foi fundado pela banda Sigur Rós (antes disso, nos anos 90, era uma piscina), é absolutamente mágico, quer pela sua história, quer pela panóplia fascinante de instrumentos que reúne, quer ainda pela sua localização algo remota (Álafoss, nas vizinhanças de Reykjavík, a capital). Desde aquele ano que lá regresso, praticamente uma vez por ano, para gravações de peças minhas, seja para bandas sonoras (“Sisterly“, “Remember” ou “Leda“), seja para álbuns em nome próprio (“In between” e “Reasons“). Assim, por saber da maravilha que é trabalhar naquele espaço, sugeri ao Tiago que lá gravássemos este disco, ao qual ele acedeu de imediato. Passámos dois dias incríveis e intensos em estúdio, com o técnico de som Birgir Jón Birgisson, outros tantos a passear pela capital. Trazemos muitas memórias e novas roupagens aos temas que até então apenas escutávamos ao piano. Financeiramente, isto também foi possível graças à generosidade de várias empresas que contactámos para nos apoiarem.

Irreversível – Qual conceito ou ideia por detrás da construção dos temas e que acabou por somar mais 4 músicos?
André Barros – Porque não queríamos gravar um disco apenas de piano a solo (como até aí nos apresentávamos em concerto), decidimos incluir muitos outros teclados e alguns instrumentos menos comuns, por forma a criarmos versões que fossem, penso, um pouco mais cinemáticas. Tornou-se, depois, inevitável trazer a bordo outras cores, com as quais – aliás – tanto nos relacionamos noutros trabalhos nossos, como foi o caso de instrumentos de cordas (Fernando Costa ao violoncelo e Veronika Taraban ao violino), de sopro (performances de Paulo Bernardino) e de percussão (Pedro Marques).

Irreversível – Como foi o processo criativo para a criação das composições?
André Barros – Estendeu-se ao longo de vários anos, como expliquei acima, e isto porque íamos compondo consoante queríamos apresentar novos temas nos concertos que – de vez em quando – íamos tendo. Assim, não houve uma premeditação na composição deste trabalho, antes um fluir natural do nosso ímpeto criativo que ia sendo estimulado pela – quero acreditar – boa recepção de quem nos ouvia em concerto.

André Barros & Tiago Ferreira © Idalécio Francisco
André Barros & Tiago Ferreira © Idalécio Francisco


Irreversível – Quais são as tuas fontes de inspiração?
André Barros – Difícil pergunta, de tão vasto que é o “catálogo” de artistas que nos inspiram; tendo que enunciar alguns nomes, diria que para mim, nomes como Ólafur Arnalds, Max Richter, Alfonso Peduto ou Sigur Rós, têm sido preponderantes no natural estreitar de uma linguagem com a qual melhor me expresso e a qual procuro melhorar. Já para o Tiago, um nome incontornável será o do pianista norte-americano Brad Mehldau, e tantos outros, incluindo o português Mário Laginha.

Irreversível – Pessoalmente detesto rotular artistas ou bandas, é quase sempre limitativo, mas por vezes é necessário fazê- lo. Se tivesses de explicar o tipo de som deste “Afloat”, como o descreverias?
André Barros – Sim, de facto – e compreensivelmente – é sempre muito redutor e até, diria, contraproducente, catalogarmos o que escutamos num ou em vários géneros musicais, ainda assim, é por vezes necessário fazê-lo, quer até para uma simples inclusão de um álbum nas plataformas de streaming para distribuição. Dito isto, é-nos um pouco difícil fazê-lo, no entanto, diríamos que navegamos em águas de neoclássico ou clássico-contemporâneo (em inglês, é habitual usar-se a expressão classical crossover), com pequenos laivos de jazz (trazidos pelo Tiago) ou até de música contemporânea em alguns dos arranjos. A designação de música alternativa poderá ser também ela justa de incluir.

Irreversível – O que é irreversível?
André Barros – O paulatino entorpecer do tempo, nos nossos corpos e sentidos. Resta-nos o amor, a empatia, e a força artística de todos para procurarmos suturar as feridas que nos vão sendo infligidas…


*foto de capa: André Barros & Tiago Ferreira © Idalécio Francisco

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