Há vozes que não calam para que Fontes não seque. Bem guardada pela Senhora do Monte, parte do sistema montanhoso da Serra Daire e Candeeiros, esconde-se uma pérola bem conservada para que quem traga sede, sacie na nascente do Lis

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião


O Nascentes traz à luz a música, a criação artística e o esboço de um quadro de esperança que se contempla demoradamente.

Num mundo mastigado de informação e de cultura rápida e bem passada, estranha-se quando se entra em Fontes, para depois se entranhar e não mais nos sair do corpo esta forma de vida, estranha para quem vem do bulício da cidade. Longe vão os velhos tempos em que ainda se davam as graças por surgirem coisas raras. Aqui, na aldeia de Fontes, abunda a raridade que escasseia noutros meios, a largueza e generosidade de corações que se mostram incansáveis. Estes parecem quase sufocar se não expelirem e se transformarem em palavras doces ou gestos de consciência humana. As mãos de quem edifica o Nascentes marcam a dureza do trabalho que se faz de peito leve, porém preenchido, e os rostos não escondem o contentamento de quem gosta de mostrar a terra que os deu à luz e colo desde a nascença até ao leito final. Quem de cá não é, rapidamente, se sente daqui e quase esquece como é a vida lá fora. Perde-se a noção da rapidez e ganha-se a noção do tempo que aqui corre devagar. Para darem a conhecer Fontes e o festival que faz pulsar o líquido que nos corre nas veias, os filhos da aldeia distraem-se em conversas com as mãos e palavras que se dizem com o corpo todo. Quem escuta e atenta as mesmas histórias, é apanhado desprevenido e sem se dar conta já se está com uma mão no peito para guardar as mesmas no local de onde já não saem. Os sorrisos de quem aponta casas de familiares e fontes que lavam e levam alegrias e tristezas, abrem os lábios sem força. Se os lábios conferem a casa das palavras assertivas e generosas, os olhos são as casas das imagens que guardam as memórias. Da mesma forma que no Inverno a nascente do Lis chora rio abaixo, os olhos de quem conta as suas histórias, tornam-se vidros turvos de sal.

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião


O festival Nascentes é o ornato de uma aldeia que por si só já traz razões para celebrar, onde sentimos de imediato ser atingidos por seres humanos para que não esqueçamos a matéria de que somos feitos. As casas, batidas pelo sol e com pestanas de sardinheiras, abrem os olhos cedo para testemunharem as gerações que confluem por vontade e amor comum, garantir que Nascentes fazem jus à delicada aldeia de Fontes. O festival Nascentes é mais do que música e criação artística. Ultrapassa toda a expressão artística quando tudo o que aqui se vive é a maior forma de liberdade e expressão viva. Para quem vive o tempo devagar de Fontes deleita-se com a facilidade e astúcia de quem rompe o Nó Górdio de um paradigma que se vive rápido e mastigado.

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião


A música que ali se ouve nos cinco dias de Nascentes largam as amarras do tempo limitado e ancoram-se em cada corpo que se permite transcender por tempo indeterminado. O Nascentes traz à luz a música, a criação artística e o esboço de um quadro de esperança que se contempla demoradamente.

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião


O assombro e atropelamento de gente boa que se sente após nascer o festival deixam marcas irrevogáveis. A saudade que nos fica, tem olhos verdes e deixa correr um fio de prata que conhece o caminho da sua Foz, agora localizado além Lis. Carregamos, delicadamente, o fio de prata ao peito e rogamos para que a sua canção ecoe nos nossos ouvidos durante um ano de espera.

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião

Nascentes © Raquel Folião
Nascentes © Raquel Folião


*foto de capa – Nascentes © Raquel Folião

Conteúdo escrito pela criadora de conteúdos Raquel Folião

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