Texto por Gonçalo Morgado | Entrevista por Francisco Sousa Barros

O sucessor de “Suburbs of Joy” (2019), viu a luz do dia a 28 de Abril de 2023. Disco de uma sonoridade coesa e visceral, incendiada por uma abordagem pragmática ao punk, onde foi de um modo descomplexado, maduro e não menos inteligente, buscar aquele “bocadinho assim”, essencial para subir o nível através de uma explosão sonora singular e subversiva. Caso ainda não tenham percebido, falamos dos El Señor, power trio de Fafe, composto por Guilherme Pinto dos Santos (voz e guitarra), Vitor Silva (bateria e voz) e Duarte Oliveira (baixo e voz), uma das bandas do momento, e do seu mais recente trabalho, “Affection to Belong“.
Depois de uma primeira audição fica claro que este é um registo de transição para uma sonoridade mais crua e visceral que de um modo natural acaba por perder alguns maneirismos de um garage mais clássico até aí associado aos El Señor. As conotações pós-punk de outros tempos, movidas a rastilhos sempre curtos de fuzz, abriram caminho a treze canções inebriadas pelo desassossego dessa estranha forma de vida que é o limbo entre o rock e o punk.
Affection to Belong” dá um outro sentido à viagem e coloca os El Señor no centro de um turbilhão sonoro pleno de uma bizarria esquizofrénica com a ousadia para homenagear a melodia enquanto a estilhaça de um modo dissonante e subversivo. Uma edição de autor que sublinha a singularidade de que são feitos.

El Señor @ Malfeito – Café Avenida – Fafe | fotos © Carlos de Jesus
El Señor @ Malfeito – Café Avenida – Fafe © Carlos de Jesus


À boleia de um interregno na “Affection to Belong Tour” que contou com passagens por Fafe, Vila Real e Lisboa, a Irreversível esteve à conversa com Guilherme Pinto dos Santos, vocalista e guitarrista dos El Señor, na antevisão do concerto da próxima quinta-feira 22 de Junho no Maus Hábitos (Porto).

El Señor | foto © Eduardo Brito

(…) um concerto é mutável e aberto, e a imprevisibilidade é também unicidade.

Guilherme Pinto dos Santos


Irreversível – Olá Señor. Parabéns pelo novo Affection to Belong. Quando recebi o disco não coloquei nenhuma faixa para a frente (risos) e dei comigo a pensar: “Foda-se, está muito fixe!”. Nota-se consistência mantendo o nervo e individualidade. Sentem o mesmo? A que se deve esta evolução?
Guilherme Pinto dos Santos – Olá, Francisco. Muito obrigado por nos receberes. A evolução passa pelo nosso amadurecimento, enquanto músicos e pessoas, e pelas experiências que vamos vivendo e partilhando. Nós somos todos amigos, passamos regularmente tempo juntos, fora do processo de criação que envolve a banda. Sabemos quase tudo das vidas uns dos outros. Insultamo-nos mutuamente e assim. Isso é essencial para a nossa maneira de ver e fazer música, porque o que somos e a nossa relação está plasmado no que sai cá para fora, faz parte de uma dinâmica própria. Além disso, houve, definitivamente, mais tempo para diálogo e trocas de ideias. O álbum de estreia, “Suburbs of Joy”, viveu um processo completamente diferente. Os El Señor não tinham baixista, eu e o Vitor tínhamos duas ou três músicas que convenceram o Duarte a integrar a banda, demo-nos todos muito bem e o resto das músicas foram compostas em poucos meses, e gravadas numa semana. Entretanto, a relação e a sintonia cimentaram-se, fizemos uma tour europeia. Para “Affection to Belong”, fizemos uma sessão de pré-produção e duas sessões de gravações. Houve coisas que nem levamos para estúdio e há duas músicas gravadas que ficaram de fora. O tempo de diálogo que falei antes, é também ambivalente: se passa muito tempo, podes já não te identificar com uma música que fizeste há um ano atrás. E isso foram outras conversas (risos).

Irreversível – A tour de apresentação do “Affection to Belong” já arrancou. Existe alguma evolução nas músicas do novo disco quando as tocam ao vivo?
Guilherme Pinto dos Santos – Parte da maneira de encarar este disco esteve ligada à percepção de que as músicas de “Suburbs of Joy”, tocadas ao vivo, já não eram a mesma coisa. Por isso, desde que começámos a discutir um novo trabalho, surgiu a vontade de fazer algo mais parecido com o que poderíamos soar em concerto, o que nos levou também a dar uma atenção especial à forma como o trabalhamos. Introduzimos elementos novos e encaixamos as músicas do álbum anterior de forma a criar um caminho que achamos que faz sentido. E, depois, ao contrário de uma gravação, um concerto é mutável e aberto, e a imprevisibilidade é também unicidade.

El Señor @ Malfeito – Café Avenida – Fafe | fotos © Carlos de Jesus


Irreversível – Qual é o conceito por detrás de “Affection to Belong”?
Guilherme Pinto Santos – Não há conceito, no sentido de existir uma narrativa condutora sobre a qual as músicas tenham sido compostas. Há, no entanto, coisas que trazemos connosco, desde as letras à postura que queremos assumir. E, o mais importante, coisas que trazemos connosco mesmo que não queiramos. Acho que é mais por aí. Embora de diferentes modos, em diferentes tempos, e à semelhança de “Suburbs of Joy”, caímos muito na cena da comunidade local, do que é viver em Fafe, Minho, tão perto de tudo e tão perto de nada. Nas dinâmicas sociais que aqui acontecem e que forçosamente nos moldaram, para o bem e para o mal. Não temos de nos mostrar cosmopolitas. Tudo isto acabou por influenciar o pensamento e a concepção gráfica do disco, para a qual contribuiu o incansável Eduardo Brito, na fotografia, e o nosso Duarte Oliveira, no design.

Irreversível – Como é o vosso processo criativo?
Guilherme Pinto dos Santos – Não existe um método definido ou regular. Podemos aparecer nos ensaios com músicas quase feitas, que depois trabalhamos os três, ou levar ideias que depois evoluem. Ou, também, pode surgir alguma coisa numa jam. A “Mood In Reverse”, por exemplo, foi feita em cinco minutos, naqueles primeiros acordes ao calhas antes do ensaio começar.

Irreversível – Quais são as vossas fontes de inspiração?
Guilherme Pinto dos Santos – A força de gritar. Nós, aquilo que nos rodeia, os que nos rodeiam e de quem gostamos. O que desprezamos, também.

Irreversível – Pessoalmente detesto rotular projectos/bandas. É quase sempre limitativo, mas por vezes é necessário fazê-lo. Se tivessem de explicar o tipo de som que fazem, como o descreveriam?
Guilherme Pinto dos Santos– É rock.

Irreversível – O que é irreversível?
Guilherme Pinto dos Santos – O preço da habitação.


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