Glimmer” de Rui Horta & Micro Audio Waves
Estreia 2 e 3 de Fevereiro no Teatro Aveirense, na Capital Portuguesa da Cultura 2024

Acompanhando a edição do novo disco homónimo da banda composta por Cláudia Efe (voz), Flak (guitarra e programações), C. Morg (teclados e programações) e Francisco Rebelo (baixo), este novo disco/espectáculo “Glimmer” é uma criação híbrida de música, dança, video, artes digitais, moda, iluminação e arquitectura de cena, convocando o regresso dos Micro Audio Waves, em co-autoria com um dos seus maiores cúmplices, o coreógrafo Rui Horta.

Em palco, ao lado dos elementos dos Micro Audio Waves, vai estar a bailarina e coreógrafa Gaya de Medeiros, uma das mais surpreendentes revelações da dança contemporânea. Os figurinos têm a assinatura da jovem e consagrada estilista Constança Entrudo. Guilherme Martins assina os conteúdos digitais e o desenvolvimento de software, com colaboração adicional de David Ventura e Marco Madruga. Stella Horta assina a direcção e realização vídeo da peça. Na produção está Pedro Santos, cúmplice de sempre, que completa o universo criativo de “Glimmer”.

A Irreversível teve a oportunidade, única, de assistir a um dos últimos ensaios gerais do espectáculo, durante a residência artística que os intervenientes de “Glimmer” fizeram na Black Box, espaço integrante do Centro Cultural de Vila Flor, em Guimarães.
No final estivemos à conversa.
Confesso aqui que levava uma série de perguntas preparadas, mas, no final do ensaio geral, perante o que assisti, e o único spoiler que coloco é que o espectáculo é imperdível, algumas das perguntas já não faziam sentido, assim como gostava de perguntar outras coisas… Acabamos por nos sentar a conversar em modo free style, gravando o diálogo…

Micro Audio Waves | Glimmer
Irreversível | Micro Audio Waves

(…) se é para voltar, vamos fazer qualquer coisa que nos preencha completamente e que nos faça sentir que vamos fazer a diferença.

Cláudia Efe Micro Audio Waves

Irreversível | Francisco Barros – Muito obrigado pela vossa disponibilidade para a Irreversível e acrescentar que foi um enorme gosto estar aqui presente hoje…
Treze anos depois temos os Micro Audio Waves de volta, são treze anos, certo?

C. Morg – Sim, mais ou menos, treze, quatorze anos.
Cláudia Efe Sim, é por aí. (risos)
Irreversível – Uma dúzia de anos…
C. Morg – Desde o último concerto terá sido uma dúzia. Nós temos um concerto, acho que em 2013, no CCB. Tinha sido dos últimos… Não, depois disso ainda tivemos um no metro, achamos que era a melhor forma, a forma mais digna de um músico fazer uma pausa, era tocar no metro.
Irreversível – Foi assim que terminou?
C. Morg – Sim, foi assim que terminou.
Cláudia Efe – Foi naquela do metro?!
C. Morg – No metro debaixo do Chiado.
Irreversível – Não fazia a mínima ideia…
Temos, por aquilo que vi, um estimulante retorno dos Micro Audio Waves. O que vos levou a este regresso, quais foram as motivações? Posso perguntar isto?
C. Morg – Podes, sim.
Cláudia Efe Claro! Acho que já tínhamos uma boa coleção de canções que gostávamos imenso, sentimos que eram completamente válidas e que também não havia nada de parecido… Naquilo que se ouve normalmente hoje em dia…
Irreversível – Não, não há…
Cláudia Efe Portanto, achamos que isso já era qualquer coisa.
C. Morg No fundo, ser músico em Portugal, exige muita resistência. Agradeço a todos os músicos que passaram por essa resistência, resiliência e que não é nada bom. Mas, na verdade, é que não é fácil, não é fácil mantermos a motivação, a liberdade e a força, os sacrifícios que se tem de fazer para nos dedicarmos só à música. Infelizmente é assim, nós vínhamos de uma década com quatro álbuns e fizemos concertos, fizemos campanha eleitoral por todo o país, depois também começámos a subir uns degraus nas nossas condições e acabamos com um espectáculo, o “Zoetrope” em 2010, também com o Rui Horta. Foi para nós o culminar na ascensão que tínhamos vindo a ter e depois disso fica muito difícil, mete-se ali a crise de 2011/2012. Os teatros deixaram de programar, a troika a cortar tudo e mais alguma coisa…
Irreversível – Permite-me interromper, porque havia uma enorme diferença entre os Micro Audio Waves em palco, banda formato tradicional, e depois o espectáculo “Zoetrope” que fizeram com o Rui Horta. Eu acompanhei as duas…
C. Morg Sim, mas mesmo depois disso fizemos concertos, sim, era um espectáculo mais conceptual como é este. Mas mantivemos sempre uma atividade paralela… por isso é que não fechamos agora a porta, desde que existam as condições que se exigem.
Irreversível – Posso citar essa parte?! Se existirem as condições…
C. Morg – Claro que pensamos nisso, agora para estar ali à molhada, para serem mais onze… e estar ali…. isso não…
Irreversível – Sem as tais condições?
Cláudia Efe Sim.
C. Morg – Isso esquece… Pronto, mas basicamente foi isso, esse momento da troika, em que os teatros são completamente arrasados em termos de verbas e o próprio país, de modo geral, não tinha… … E nós tínhamos muitos afazeres profissionais, familiares, outros projectos paralelos… Bem, naturalmente as coisas foram ficando em banho-maria, até que chega altura da pandemia, em que são momentos de urgência, de pausa, de reflexão, em que saímos das bolhas onde andamos metidos. Refletimos um bocado e achamos que tínhamos material e, entretanto, também novo material… em termos técnicos que fomos arranjando, instrumentos, computadores, coisas que nos permitam também pôr em prática as ideias de uma forma mais actual… Bem, e naquele hiato da pandemia em que estava tudo assim no vácuo, começou. Nós sempre nos demos bem, somos amigos, boas relações, se calhar isto era um sinal para nos voltarmos a reunir.
Irreversível – E foi logo pensado que seria novamente um espectáculo com o Rui Horta?
C. Morg – Não, não, não.
Cláudia Efe Não.
Irreversível – Ou era apenas o conceito de banda tradicional?
Cláudia Efe Já tínhamos quase tudo terminado quando…
C. Morg – A ideia era…
Irreversível – Já tinham tudo mais ou menos pronto?
C. Morg – Sim, nós estávamos para editar um disco de forma convencional…
Cláudia Efe Sim, sim!
(Neste momento, o Flak junta-se ao grupo )

Micro Audio Waves
Irreversível | Micro Audio Waves


Irreversível – Bem-vindo Flak.
C. Morg – … E temos o disco preparado em 2021. Depois deparas também com essa escolha. Vamos fazer isto, num circuito…?! Temos que fazer uma coisa com amor… temos, para a música temos, esses sacrifícios e tal…
Flak – Vamos fazer uma coisa mais sofisticada.
C. Morg – Sim, essa foi a questão.
Irreversível – Já abordaram em parte algo sobre este assunto, mas quais são as maiores dificuldades que vocês, enquanto projecto, na especificidade da vossa individualidade, encontram para depois montar tudo isto?
C. Morg – Temos aqui duas formas dos músicos colocarem em prática a sua arte. Como banda tradicional, em que os apoios são praticamente nulos e quando vais entrar neste circuito, podes-te espalhar e esbarrar contra uma data de situações porque isto dá trabalho e depois no fim o retorno que tens…
Cláudia Efe Na realidade, hoje com a música, ou seja, os discos como venda, os royalties, não são suficientes…
Flak – Não aparecem. (risos)
Cláudia Efe Ou seja, o único meio que o músico tem é de facto fazer um espectáculo, não é? E então um espectáculo tem que fazer a diferença… Não é só a música… Cada vez tudo é mais visual e nós vemos tantos espectáculos nos ecrãs ou ao vivo. Portanto, a vontade era de facto, se é para voltar, vamos fazer qualquer coisa que nos preencha completamente e que nos faça sentir que vamos fazer a diferença.
Irreversível – Uma pergunta que já fiz ao Rui Horta e gostava de colocar também a vocês… entre o disco, que acabei de perceber que nasceu primeiro que o espectáculo, e agora toda esta peça, são duas faces da mesma moeda? Ou não?!
Cláudia Efe
Não, não são.
Flak – Não.
Cláudia Efe Nós temos músicas novas que não estão no disco, temos versões que não estão no disco, portanto…
Flak – Temos as ligações todas, os ambientes todos, não há silêncio, não há pausas.
Cláudia Efe Ou seja, o objecto que temos no disco, ao vivo não pode ser replicado, não é?!
Flak – Tivemos que fazer todas as ligações musicais…
C. Morg – Temos uma narrativa, ligações…
Irreversível – Ainda não ouvi o disco, só conheço o single e assisti aqui hoje a este ensaio geral, mas senti uma banda muito mais política, social, quase de intervenção.
Não sei se está relacionado com a adição da Gaya, ou não, mas até nas letras senti isso… acompanho o vosso trabalho desde o início, sou um fã e não tenho que esconder esse facto
. Isto até pode aparecer escrito, há muito medo às vezes de revelar estas coisas, mas eu assumo sem problema nenhum… (risos)
Conceptualmente vocês eram, no passado, muito mais poéticos e senti hoje algo muito mais político, social…
C. Morg – Sim, mas isso resulta da peça.
Flak – … Isso resulta da peça.
Irreversível – Estou enganado, não resulta do disco? Lá está, ainda não ouvi o disco.
Cláudia Efe Não!
Flak – As canções foram feitas como peças individuais, no fundo, ao juntarmos tudo, ao criar uma narrativa para a peça, é que começamos a montar a ligação.
Irreversível – Mas o disco não reflecte isso?
Cláudia Efe As nossas letras são sempre muito abertas e muito poéticas…
Flak – Pois, é isso, são moldáveis…
Cláudia Efe Portanto, tu podes dar uma interpretação que pode dar este resultado, não é? Não há preocupação, o Universo cabe aqui. Podemos dar a carga que quisermos dar, não é? Por isso, “Glimmer” até vem desse lado, algo que não é palpável, não tem uma forma, mas é um momento, um momento que tu podes dar…
Irreversível – Mas existem essas intenções?!
Flak – Fomos criando essas intenções à medida que fomos conversando.
C. Morg – Quando partes do disco para o espetáculo criam-se uma série dessas intenções e aí o Rui Horta é mestre em dar um fio condutor.
Irreversível – E agarrar…?
Cláudia Efe Sim. E também são preocupações nossas!
C. Morg – Claro, isto é um trabalho da tua autoria, mas tens essa… depois começas a ter essa sensibilidade. Claro que isto tem um acto também de resistência…
Irreversível – Senti quase de intervenção, aqui e ali…
C. Morg – Sim, tem… Esses momentos.
Cláudia Efe Sim, sim!
Irreversível – Que eu não sentia no passado…
Cláudia Efe Aliás, eu acho que quando o Rui nos propôs trazer a Gaya, ninguém o questionou. O Rui estava preocupadíssimo, queria adicionar alguém e não sabia muito bem como ia colar. Mas, quando sugeriu a Gaya, nós ainda não a conhecíamos, fomos ver as coisas que ela fazia e aceitamos, para nós foi uma coisa muito fluida e lógica.
Flak – Ele disse-nos logo que gostava de trabalhar com a Gaya.
Irreversível – Está fantástico…
C. Morg – Mas era uma mistura arriscada… Tínhamos noção que ele estava aqui a juntar uma série de elementos…
Flak – Sim.
C. Morg – Mas isto para dizer que antes de fazer a omelete…
Flak – … Antes de fazer a omelete fizemos uma bela equipa. (risos)
C. Morg – Exato, mas sabíamos que tínhamos de cozinhar aqueles ingredientes e que se ia preparar uma coisa interessante.
Irreversível – Vou fazer uma pergunta cliché, mas que faz ainda mais sentido para um projecto que esteve uma dúzia de anos ausente e que há uma geração que não vos conhece, até de malta na área…
Cláudia Efe Hum, Hum.
Irreversível – Têm a noção disso, que há uma geração…
Cláudia Efe Sim…
Flak – Estava agora mesmo a falar disso…
C. Morg – Malta que tenha agora 23 anos…
Irreversível – … E que não conhecem Micro Audio Waves. Estou a falar de malta com até 30 e tal anos…
Cláudia Efe Claro.
Irreversível – A pergunta é um bocadinho cliché, mas acho necessário, gostava de incluir isto no conteúdo. É um bocado injusto, eu detesto fazê-lo, que é rotular um artista ou uma banda (risos e trocas de olhares generalizados) acho que é injusto fazer isso… Mas, se tivessem que rotular o som que fazem…? (risos)
Cláudia Efe Deveria estar mais preparada para essa pergunta, de facto. (risos) Porque já há tantas definições…
Irreversível – Nem que seja para colocar nas plataformas de streaming e etc?
Micro Audio Waves – (risos, trocas de olhares, risos, conversas paralelas, risos)
Irreversível – Amei a reacção dos três. Mas insisto, se tivessem de explicar a alguém o que vocês fazem, o que diriam?
Cláudia Efe Pop, eletrônica, mas isso no disco.
Flak – São canções, pop.
Irreversível – E isso no disco?
C. Morg – Sim. É um disco de canções, mais que qualquer disco nosso, é um disco de Synth-Pop, electrónica, também tem um bocado de rock, uma coisa mais experimental, portanto isto é uma fusão.
Irreversível – E o espectáculo? Se tivessem que o definir? Se fossem obrigados a isso? (risos)
C. Morg & Cláudia Efe (ao mesmo tempo) É um híbrido.
C. Morg É um híbrido que não tem sexo, não tem género.
Cláudia Efe Junta todas as disciplinas. Tem todos, ou pretende ter todos…
Flak – É assim porque é baseado numa banda, não é um espectáculo de dança. É um espectáculo baseado num concerto, mas que abre, não é uma coisa muito comum.
Irreversível – Não é nada comum…
C. Morg – É uma espécie de uma ópera, pop.
Irreversível – Uma ópera Synth-Pop ?
Flak – Ópera dá sempre aquele ar de grandioso… (risos)
Cláudia Efe Uma ópera fica sempre bem. (risos)
C. Morg – É uma “pópera“. (risos)
Irreversível – Posso aproveitar o “pópera“? (risos)
(…)
Irreversível – O que é, para vocês, irreversível?
Flak – O que é irreversível? As nossas vidas, os nossos percursos de vida…
Cláudia Efe … As nossas liberdades…
Flak – … E as nossas liberdades, esperemos bem que sim.
C. Morg – Acho que irreversível é o sentido dessa liberdade e a procura da felicidade, vivermos com a melhor qualidade de vida possivel e às vezes para isso temos que subverter um bocado os valores que nos são cada vez mais despejados pela sociedade e pela comunicação social, por toda uma lavagem que levamos, que nos fazem encarreirar por determinados caminhos, alguns bastante perigosos… e acho que para mim é irreversível seguir esse caminho ou pelo menos pensar que a felicidade e a qualidade de vida, muita vezes, a maior parte das vezes, passa por outros caminhos.
Irreversível – Cláudia, faltas tu… O que é para ti irreversível?
Cláudia Efe Irreversível são liberdades que alcançamos hoje e que ainda queremos alcançar, não só para uns, mas para todos.
Irreversível – Malta, muito obrigado, foi um prazer imenso estar aqui nesta conversa sem rede com vocês
(…)

Micro Audio Waves
Micro Audio Waves | Gaya de Medeiros | Rui Horta


DATAS CONFIRMADAS:
2 e 3 FEV 2024 – Teatro Aveirense
17 FEV 2024 – Teatro Municipal de Ourém
24 FEV 2024 – CCC Caldas da Rainha
1 e 2 MAR 2024 – Teatro Viriato (Viseu)
09 MAR 2024 – Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)
15 JUN 2024 – Teatro José Lúcio da Silva (Leiria)
12 OUT 2024 – Centro Artes de Águeda
19 OUT 2024 – Casa das Artes Famalicão
26 OUT 2024 – Cine-Teatro Curvo Semedo (Montemor-o-Novo)
31 OUT 2024 – Casa da Música (Porto)
16 NOV 2024 – Teatro Municipal de Bragança
21 a 23 NOV 2024 – Teatro São Luiz (Lisboa)

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