A Crowdmusic trouxe os Maruja a Portugal para 3 datas esgotadas.

O circuito alternativo britânico tem uma capacidade quase industrial de gerar a “próxima grande cena” a cada trimestre. Mas, de vez em quando, surge uma falha na linha de montagem. Um bicho que recusa a cartilha estética, que não quer saber do falatório de curadores de tendências e que opera numa frequência de violência e honestidade que já raramente se fabrica. Esse bicho chama-se Maruja. A sua recente passagem pelo Porto foi a confirmação de que estamos perante uma proposta perigosa, instintiva e necessária, da música contemporânea actual.

Para mim, não foi uma surpresa, já os tinha apanhado anteriormente, já estava carimbado em mim a sua tal frequência, antes de se tornarem o segredo mais mal guardado do circuito.

Vindos da cena underground de Manchester, os Maruja trazem no ADN a herança da rejeição ao óbvio. Não pertencem à vaga de bandas que usam o cinismo ou a ironia pós-moderna como escudo protector. A música deles é um embate desprovido de filtros ou de tiques. Quando olhamos para o panorama actual, a tentação imediata da crítica preguiçosa é enfiá-los na gaveta gasta do pós-punk ou do avant-garde. Mas a gaveta é pequena demais para os conter. O que o quarteto faz é implodir barreiras. Existe ali o peso abrasivo do noise rock, a liberdade caótica do jazz espiritual, a cadência crua e direta do hip-hop experimental, entre outros géneros e subgéneros.

O grande segredo da engrenagem dos Maruja reside na forma como distribuem a agressividade. O saxofone de Joe Carroll não está lá para decorar ou para dar um verniz intelectual às composições, ele funciona, por vezes, como uma segunda voz, berrando e arranhando o ar, assim como, por vezes, funciona com a mesma distorção que esperaríamos de uma guitarra. É um duelo constante com a secção rítmica, uma maquinaria pesada que dita as regras do jogo. E à frente deste anarquia organizada está Harry Wilkinson, um estratega que descarrega os seus textos não como quem canta canções, mas como quem dita manifestos de sobrevivência urbana em tempo real. Sobre hoje.

O concerto no Porto serviu de gancho perfeito para perceber o momento de afirmação em que a banda se encontra. Com o impacto do registo “Pain to Power“, os Maruja usam o palco como um laboratório de teste, onde as canções ganham uma densidade de betão armado que nenhum registo de estúdio, por mais bem produzido que seja, vai conseguir aprisionar por completo. É música que precisa do erro, do calor e do atrito, para se fazer existir na sua maior profundidade e abalroamento.

O que os Maruja provaram nestes dias em solo nacional, é que o rock só faz sentido quando mexe com as tripas e com o coração, quando se recusa a ser apenas entretenimento de fim de semana para quem faz scroll no telemóvel. Eles exigem atenção e uma escuta atenta.

E, depois de os ouvirmos, já não há como voltar atrás.


Capa:
Artwork: Pedro Silva