Para assistir a Lucrecia Dalt haveria duas formas de regressar a Braga: Com certezas absolutas ou com a memória cheia de cicatrizes.
Quando em 2023 rumei ao gnration para ouvir Lucrecia Dalt, confesso que ia com aquela desconfiança saudável de quem não tinha sido totalmente arrebatado pelo aclamado ¡Ay! no recato do lar. Mas o palco, esse eterno filtro purificador de hypes, trocou-me as voltas. Ali, ao lado do percussionista Alex Lázaro, a colombiana causou-me uma daquelas transformações seminais que só encontrava guardadas na gaveta do meu primeiro concerto de Einstürzende Neubauten em Arcos de Valdevez, lá no longínquo ano 2000. Saí do gnration com um abraço dela e uma marca indelével na pele.
A minha relação auditiva e emocional com Lucrecia Dalt ficou selada. Tanto que, quando 2025 bateu à porta, a Irreversível no balanço do ano colocou no topo A Danger to Ourselves. Foi, sem espinhas, o nosso Disco Internacional do Ano. Estava destinado que o reencontro teria de acontecer em Braga, agora em trio, com Cyrus Campbell (que assume o contrabaixo e o baixo elétrico). E aconteceu, no imponente e histórico cenário do Theatro Circo.
Mas antes do Theatro Circo, um parêntesis de calendário. É que este concerto teve a audácia cósmica de surgir encaixadinho entre dois festivais. Na ressaca do polémico North Festival com os Cure a arrastarem multidões de negro para um relvado que ainda procurava as saídas de emergência e o inevitável Primavera Sound.
Ora, no meio deste sanduíche de massas, palcos gigantescos, ativismo de pulseira VIP e “poeiras” festivaleiras, Lucrecia Dalt no Theatro Circo funcionou como uma espécie de descompressão espiritual. Sem filas na VCI, sem hambúrgueres ou cerveja ou até água a preço de ouro e sem a azáfama dos grandes cartazes. Apenas o silêncio reverencial que uma sala exige antes de ser inundada pelo som.
E que inundação. Se em 2023 no gnration falávamos de uma experiência íntima e de texturas que se revelavam ao vivo, a transição para o palco do Theatro Circo elevou a música de A Danger to Ourselves a uma escala quase cinematográfica. Arte em estado puro. Lucrecia Dalt continua a recusar explicações supérfluas e rótulos fáceis. Dizer que é avant-garde, música experimental ou eletrónica de fusão, é manifestamente pouco para explicar o inventário existencialista e sinuoso que ela descarrega sobre nós.
Lucrecia Dalt © Lais Pereira
Em palco, Lucrecia deambula entre o transe percussivo e os espectros sonoros de forma tão natural que quase nos esquecemos de todo o mundo, ou mundos, lá fora.
Neste magnetismo, o público do Theatro Circo também se destacou, quase uma extensão da própria performance. Numa era de hiperconexão e ecrãs omnipresentes, aconteceu ali um pequeno milagre, não se via um único telemóvel no ar. Toda a gente escolheu estar ali, inteira, a absorver a densidade do momento. A recompensa mútua materializou-se em duas salvas de palmas apoteóticas, com o Theatro Circo em peso, todo de pé, a render-se à evidência daquilo que testemunhava.
Há bandas/artistas que fazem concertos para nos entreter, Lucrecia Dalt faz esquivas, cria desassossegos e deixa vestígios. Sair do Theatro Circo depois de a ver defender o (nosso) trono de melhor disco de 2025 para a Irreversível, foi a confirmação de que, entre o comercialismo inevitável dos grandes festivais e o nicho hermético da erudição, há um lugar sagrado onde a música nos agarra e nos leva a viajar por espaços misteriosos.
Dalt voltou a dar-me uma cicatriz, foda-se. E eu, fiel ao hábito, só tive de a transformar em linhas que teimam em não esquecer.
*foto de capa: Lucrecia Dalt © Lais Pereira



