Os BRUIT≤ pedem tempo. E hoje, exigir atenção pode ser quase uma atitude política.
Foi assim no M.Ou.Co., num evento promovido pela Crowdmusic.

No final do concerto dos BRUIT≤, no Porto, havia uma fila enorme para o merchandising.

Não era uma fila particularmente surpreendente. Há sempre quem queira levar uma t-shirt, um vinil, um CD, qualquer objecto que permita prolongar em casa aquilo que acabou de acontecer num palco. Mas fiquei a olhar para aquela fila durante algum tempo.

Talvez porque os BRUIT≤ sejam uma banda particularmente difícil de transportar para casa.

O que se leva de um concerto dos BRUIT≤ não cabe facilmente num saco.

Os BRUIT≤ não são uma banda que peça propriamente para ser compreendida à primeira audição. Há qualquer coisa de deliberadamente paciente na forma como constroem a música. As coisas demoram a acontecer, acumulam-se, repetem-se, desaparecem e regressam com outra dimensão.

Neste gig, isso foi particularmente evidente. O som estava de altíssima qualidade, permitindo perceber cada camada sem que o volume transformasse a complexidade da música numa massa indistinta. E havia um público à altura da exigência; muito atento, quase imóvel em alguns momentos, e sem telemóveis no ar.

É uma imagem cada vez menos banal num concerto.

Durante boa parte da noite, parecia haver um acordo silencioso entre palco e plateia, eles tocavam, nós ouvíamos.

E isso fez a diferença.

Vindos de Toulouse, os franceses construíram, desde Monolith, uma linguagem que pode ser chamada de pós-rock, embora a palavra pareça cada vez menos suficiente. Há estruturas que crescem lentamente até se tornarem enormes. Mas também há silêncio, contenção e uma estranha capacidade para fazer com que uma nota pareça estar a preparar alguma coisa durante vários minutos.

É uma música que não tem pressa.

E talvez seja precisamente por isso que, quando explode, parece ainda maior.

The Age of Ephemerality, editado em 2025, levou essa linguagem ainda mais longe. O próprio título parece uma contradição quando pensamos na música dos BRUIT≤… “ephemeral”, aquilo que é passageiro, momentâneo, destinado a desaparecer. Mas poucas coisas na música da banda parecem feitas para desaparecer depressa. Pelo contrário, ficam.

Ephemeral. Data. Progress / Regress. Technoslavery / Vandalism. The Intoxication of Power.

Os títulos também não deixam grande margem para acreditar que estamos perante uma banda interessada apenas em construir paisagens sonoras bonitas. Existe uma dimensão política na música dos BRUIT≤, uma inquietação perante um mundo onde a tecnologia, o poder, o controlo e a própria ideia de progresso deixaram de ser conceitos abstractos.

Mas, talvez seja um erro tentar explicar demasiado os BRUIT≤.

Neste concerto, a música foi crescendo sem a necessidade de anunciar aquilo que vinha a seguir. Mais uma camada. Mais uma repetição. Mais uma alteração quase imperceptível. Até que aquilo que parecia estar a acontecer muito devagar já ocupava todo o espaço.

Não há propriamente canções no sentido tradicional da palavra. Não há a necessidade de chegar rapidamente a um qualquer espécie de refrão. Não há a obrigação de facilitar a entrada.

Os BRUIT≤ pedem tempo.

E hoje isso é quase uma atitude política.

Vivemos rodeados de coisas que querem a nossa atenção durante quinze segundos. Os BRUIT≤ querem mais. Querem os nossos minutos, a nossa concentração e, se possível, alguma coisa mais difícil de obter, como a disponibilidade.

Talvez seja por isso que funcionem tão bem ao vivo.

No fim, quando tudo acabou, havia aquela fila.

Uma fila enorme.

Pessoas à espera para comprar qualquer coisa dos BRUIT≤.

Um disco. Uma camisola. Uma memória transformada em objecto.

Talvez afinal seja possível levar um pouco daquele concerto para casa.

Mas não é a música.

Essa fica.


Foto de capa: BRUIT≤ © Sérgio Davide