Da inocência do DIY à curadoria do futuro:
Duas décadas de Lovers & Lollypops a amplificar o pulso do underground.

Os puristas do calendário dirão que os 20 anos da Lovers & Lollypops se celebraram em 2025. Mas, se há coisa que duas décadas de underground nos ensinaram, é que o tempo é relativo quando se está ocupado a manter a cena viva.

Estamos em 2026 e a festa continua, porque o legado da Lovers & Lollypops não cabe num só ano civil. Do “rock de Barcelos” às novas texturas eletrónicas do Porto, da inocência dos primeiros CD-Rs gravados em casa à gestão profissional de carreiras internacionais, a Lovers & Lollypops transformou-se numa instituição e arquivo vivo de uma geração.

Nesta conversa, com Joaquim Durães e Márcio Laranjeira, é atravessado o passado e projetado o futuro. Entre memórias do Milhões de Festa, a evolução do “fazer tudo à mão” para um “saber-fazer” maturado, e a relação intensa com as bandas, tentamos perceber o que faz correr esta máquina.

Uma conversa sobre a maturidade de uma estrutura que trocou a inocência sem nunca abdicar da paixão, que torna este caminho; para eles e para quem os acompanha; um processo absolutamente irreversível.

Festa 20 anos Lovers & Lollypops
Festa 20 anos Lovers & Lollypops

Irreversível – Vinte anos depois, quando recuam à fundação da Lovers & Lollypops, o que é que ainda reconhecem na editora de hoje e o que já não existe de todo?
Joaquim Durães – É uma pergunta curiosa, porque há muitas coisas que ainda se fazem sentir, mesmo que já não sejam visíveis, e outras que certamente deixaram de existir.

A contínua busca por novas sonoridades, novos artistas, novas formas de colaboração e novos conceitos, bem como a vontade de continuar a surpreender o público que nos acompanha, são aspetos que reconhecemos como estando na origem da Lovers & Lollypops e que continuam a ser a sua chama. É essa a força motriz que alimenta tudo o resto.

Pode soar a cliché, mas o espírito DIY continua profundamente enraizado em tudo o que fazemos. Isso é visível no nosso espaço, onde assumimos todas as dimensões do processo: da programação à produção, da cozinha à limpeza, da bilheteira ao bar e à segurança. Atravessamos de ponta a ponta todas as fases da produção de um concerto.

Já a inocência dos primeiros tempos, das primeiras edições e dos primeiros concertos, foi-se desvanecendo de forma gradual, dando lugar a um saber-fazer construído a partir de muitas tentativas e erros.

Irreversível – O catálogo da Lovers & Lollypops atravessa duas décadas de mutações no underground português. Que momentos ou discos consideram verdadeiramente estruturantes, não só para a editora, mas para uma estética que ajudaram a definir?
Joaquim Durães – O catálogo da Lovers & Lollypops é bastante extenso (em 2026 chegará à edição nº 163) e suficientemente eclético para não podermos falar de uma única estética. Ainda assim, há momentos que nos permitem traçar uma, entre várias possíveis, linha de vida do nosso percurso.

Os primeiros tempos, marcados pela edição de CDRs e por bandas como Green Machine, Lobster e Veados Com Fome, ajudaram a materializar a ideia de sermos não apenas uma editora, mas também uma família. Mais tarde, discos de bandas como Black Bombaim e Glockenwise, bem como todo o universo que se construiu em torno do Milhões de Festa, contribuíram para criar uma ideia, por vezes ficcionada, mas sem dúvida bonita, do chamado “rock de Barcelos”.

Mais recentemente, através de discos de artistas a solo como Angélica Salvi, Ece Canli, João Pais Filipe e Inês Malheiro, e de bandas como Sereias e Conferência Inferno, tornou-se mais clara a editora enquanto plataforma de arquivo do som de uma cidade como o Porto, ou até mesmo de um bairro como o Bonfim.

É interessante pensar uma editora também como um trabalho de arquivo de um momento singular, próprio de uma geração. Um momento conturbado, em que o futuro parece pouco auspicioso e em que a precariedade no setor das artes é latente, mas que, ainda assim, não se deixa desmoralizar e nos tem deixado uma série de discos verdadeiramente marcantes.

Irreversível – Há uma linha que sempre ligou a editora às margens – do rock mais bruto à eletrónica livre, do noise aos híbridos pós-género. Como é que essa curadoria se tem ajustado às novas linguagens artísticas sem perder o fio que vos distingue?
Joaquim Durães –É algo que está presente desde a nossa fundação e que já abordámos na primeira pergunta. Essa busca constante e a atenção aos avanços da música contemporânea, aliadas a uma curiosidade que se diria inesgotável, acabam por tornar a curadoria da editora um processo bastante orgânico.

Nunca forçámos uma edição por motivos puramente mercantilistas. A escolha dos artistas, apesar de inevitavelmente subjetiva, passa por vários crivos de seleção, sejam eles de gosto, de afinidade com as pessoas que fazem parte ou da forma como este ou aquele artista sobe ao palco e se relaciona com uma plateia.

No final de contas, editamos apenas discos e artistas por quem estamos verdadeiramente apaixonados. E isso, certamente, facilita tudo.

Irreversível – A relação com as bandas sempre pareceu mais familiar do que contratual. De que forma este tipo de proximidade influenciou as decisões editoriais e a longevidade de muitos dos projetos que passaram pela Lovers & Lollypops?
Joaquim Durães –Sem dúvida, até porque, até hoje, nunca assinámos um contrato e não nos vemos a fazê-lo num futuro próximo (nunca digas nunca). A relação com a maioria dos artistas e bandas torna-se familiar depois de começarmos a trabalhar juntos, e não antes, e isso é muito significativo.

São laços que se constroem e fortalecem a partir de uma admiração mútua e de um trabalho contínuo de cuidado e atenção , da nossa parte para com os artistas com quem trabalhamos, e deles em relação a nós, o que também é importante sublinhar. Essa proximidade acaba por influenciar naturalmente as decisões editoriais e contribui para a longevidade de muitos dos projetos que passaram pela Lovers & Lollypops.

Márcio Laranjeira & Joaquim Durães
Márcio Laranjeira & Joaquim Durães


Irreversível – Se olharmos para o panorama atual, hiper fragmentado, dominado por plataformas e com modelos de sustentabilidade frágeis, que espaço ocupa hoje uma editora como a vossa/tua? E que lutas continuam a ser necessárias para manter relevância e independência?
Márcio Laranjeira – Acreditamos que uma editora como a Lovers & Lollypops acaba por ser um reflexo desta necessidade de procurar estabilidade através de um conjunto de atividades que não sejam apenas a edição, o agenciamento ou a produção. Ou seja, a forma como conseguimos encontrar um modelo que permitisse a nossa longevidade e também um combate à precariedade – porque a Lovers & Lollypops é o trabalho de uma equipa de 6 pessoas – foi este modelo em que, dentro da estrutura da editora, acabamos por fazer de tudo. Assumimos desde a edição, à produção, comunicação, eventos, booking nacional e internacional. À escala a que trabalhamos – que é uma escala fora dos mega artistas e eventos – este modelo acaba por funcionar bem aplicado à nossa realidade. A grande luta para manter a independência e a relevância passa por uma adaptação constante à realidade, que vai mudando de ano para ano. Acho que a nossa missão e a nossa forma de ver as coisas se mantêm bastante sólidas ao longo destes anos de atividade.

Irreversível – Há memórias que se tornam quase mitologia. Concertos impossíveis, digressões épicas, gravações improvisadas, falhanços gloriosos. Que história dos bastidores destes 20 anos merece finalmente ser contada?
Márcio Laranjeira – As histórias são muitas, tantas que algumas já nem me lembro da maioria ahahah. Mas existem várias histórias com artistas com quem trabalhamos, em que se combinou um crescimento desde a sala de ensaios até, por exemplo, ao momento do lançamento do primeiro vinil da Lovers & Lollypops, como foi o caso com os Black Bombaim. Há também esta mistura constante entre amizade e trabalho, e esses artistas farão sempre parte do nosso percurso – crescemos juntos com eles. Também o primeiro Milhões de Festa, em Barcelos, acaba por ser um marco de crescimento muito importante para uma estrutura que era muito diferente daquela com que trabalhávamos até então. Trabalhámos com artistas com quem nunca pensámos vir a trabalhar, como o Peter Brötzmann, ou mantivemos relações constantes com artistas do outro lado do Atlântico, como é o caso dos Boogarins, que nos acompanham praticamente desde o início da sua carreira.

Irreversível – Ao entrar na terceira década, como imaginam o futuro da Lovers & Lollypops?
Márcio Laranjeira – Imagino um futuro risonho mas diferente. A forma como fazemos as coisas vai-se alterando. Esta flexibilidade perante a mudança, esta capacidade de olhar para as coisas e não manter uma fórmula só porque sempre foi assim que fizemos, acaba por ser uma capacidade de evolução e de adaptação às novas realidades que vão surgindo. É uma memória que está em constante construção. Acreditamos que o futuro da Lovers & Lollypops poderá ser diferente na forma de agir, mas manterá as premissas que estiveram na base da sua criação.

Irreversível – O que é Irreversível?
Márcio Laranjeira – A nossa ligação à Lovers & Lollypops. Faz parte de uma parte grande das nossas vidas, que nos permitiu trabalhar numa área que amamos e com gente que admiramos. Não me parece que esta ligação desapareça.

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