Mão Morta na Noite dos Reis da Bazuuca
Um relato onde a banda é o pretexto e o autor é o filtro, assumindo o risco de ser apenas o diário de quem se deixou cegar pela mancha. Se o filtro estiver uma porcaria, o leitor não vê nada.
Primeiro todos gostavam mais de Mão Morta do que eu. As letras todas de cor, a liturgia da decadência partilhada por quem parecia ter chegado lá antes de mim. Houve então um tempo em que achava que percebia os Mão Morta. Depois, houve um tempo em que achei que já não precisava deles. Nenhuma destas coisas durou muito.
A minha relação com eles nunca foi pacífica, foi feita de interrupções e regressos. Os Mão Morta nunca pediram fidelidade, nem nunca prometeram recompensas imediatas. Talvez por isso seja possível afastar-me deles sem ressentimento e regressar sempre que me apetece. A cada regresso, deparo-me sempre com a realidade de um entusiasmo desmedido do qual não consigo, nem quero, fugir.
É um magnetismo estranho que me fez vê-los dezenas de vezes, em dezenas de contextos diferentes: vi-os teatralizados de diferentes formas, vi-os com orquestra, vi-os em festivais para milhares de pessoas, vi-os em formato de instalação, vi-os em pequenas salas onde a intimidade atinge e deixa ferida. O que torna este percurso dos Mão Morta fascinante é que, em qualquer um destes cenários, eles mantêm a capacidade de surpreender e, acima de tudo, de continuar permanentemente a incomodar. A cada novo disco, a cada nova metamorfose, parecem afastar uns e conquistar outros. A recusa em estagnar é a sua maior beleza. Não se repetem para agradar aos convertidos.
Nesta Noite dos Reis da Bazuuca, no Lustre, percebi que esses meus afastamentos temporários dos Mão Morta são uma ilusão. Rapidamente viajei por Budapeste, Barcelona e Amesterdão. Nomes das cidades que são, no fundo, estados de espírito. Vivi mais um 1º de Novembro por entre distúrbios. Ouvi o Anarquista Duval a dizer que somos uma miragem, uma cambada de poetas e almas sonhadoras. Percebi que o tempo, para os Mão Morta, não é cronológico, é uma sobreposição de camadas. Percebi que o meu tempo com os Mão Morta não é cronológico, é uma sobreposição de camadas que – permitam-me o descaramento – cava em mim como um sublinhado provocador.
Não é nostalgia nem identificação. Os Mão Morta não se deixam organizar numa relação estável de banda de culto para recordar, e o espelho das semelhanças existe sempre que estiveres predisposto para tal. Eles são uma permanente confrontação com o presente. Continuam a desembaraçar e a desenrolar os Novelos da Paixão. Atuais como qualquer novo dia em que podemos desfrutar do nascer do sol e simplesmente ficar a olhar para ele.
A mancha – Tu Disseste – continua a alastrar (tu é que não vês) e mantém o peso do desengano. Ou se calhar é só o surreal a mexer contigo, a desviar o pensamento e a mão. Estou completamente perdido no texto, perdi a intenção e esqueci-me totalmente do que estava a escrever… só me vem à ideia a mancha a alastrar e a tomar conta de mim.
E o que é que isso interessa?
Nada.
Mas tudo tem um fim…
No contexto do frenesim da Noite dos Reis da Bazuuca, ficou claro; deixem-me colocar novamente as ideias em ordem e tentar dar um fecho a isto; que os Mão Morta surgem quando é necessário rever o que achávamos estar explicado e resolvido. É um percurso que não se deixa aprisionar em balanços claros ou em críticas de circunstância. No final, quando as luzes se acendem e ainda ecoa o desejo de anuir ao repto do Adolfo: “Foge comigo!” – e apetece tanto, tantas vezes, fugir – ficas com a sensação, ou percepção, de que os Mão Morta são a única banda que não te ajuda a fechar a merda de um texto porque a inquietação que te provocam continua sem um ponto final. Apenas perspectivas, visões, cenários e horizontes.
É este, afinal, o tempo segundo os Mão Morta.

*Foto de capa: Mão Morta © Sergio Davide
Artwork Dotpeterr
