“Que venham mais, que ocupem o espaço, porque a plateia só fica completa quando todos lá podem estar com a dignidade que merecem.”
Cobrar uma entrada a quem viabiliza a presença de outra pessoa é, na prática, uma multa sobre a deficiência ou incapacidade. Uma espécie de regra aplicada com a indiferença de merda de quem acha que a acessibilidade se resolve com uma rampa de metal amovível guardada num canto qualquer. Durante décadas, o acesso à cultura em Portugal funcionou com esta naturalidade.
A publicação do Decreto-Lei n.º 65/2026, de 5 de março, não é um “presente” do Estado. É garantir que o acompanhante não paga em espaços públicos — de museus, monumentos e palácios a concertos, teatro ou exposições. É o mínimo de decência que se exigia a um país que se diz “cultural”, com destaque para as “capitais” europeias e nacionais da cultura. Até agora, a cultura tinha uma barreira económica que dizia, nas entrelinhas, que se não tens plena autonomia, talvez o teu lugar não seja ali.
Este assunto passa ao lado dos grandes cartazes e do ruído das redes sociais porque não tem o glamour de um sintetizador de cinco mil euros, ou o fetiche masturbatório de uma curadoria. É um anexo burocrático, muitas vezes relegado para um elevador que serve para guardar material de palco. Mas a exclusão real acontece ali mesmo, no balcão da bilheteira.
Onde estão agora os grandes festivais de verão ou as promotoras que vendem a “liberdade”, a “inclusão” e o “underground” como bandeira? É de uma estupidez atroz ser necessária uma lei para que se perceba o óbvio, mas é ainda mais gritante ver quem se diz na vanguarda da cultura continuar a cobrar uma espécie de imposto à participação de quem precisa de acompanhante.
Este passo no papel é vital, mas é só o início de uma consciência que tem de deixar de ser um decreto assinado para passar a ser prática. A arte só é transformadora quando deixa de decidir quem pode vê-la a partir da funcionalidade do corpo de cada um. No fundo, é sobre reconhecer que a presença de quem precisa de apoio é o que torna a cultura humana; totalmente. Que venham mais, que ocupem o espaço, porque a plateia só fica completa quando todos lá podem estar com a dignidade que merecem.
*foto de capa: © José Luís Ferreira @ Grafschafter Metal Fest
