Um exame à persistência e aos tecidos que sustentam um festival em Fafe.

No dicionário da norma, o “malfeito” é o que carece de acabamento, o que falhou o alvo da perfeição. No vocabulário da Malfeito, a associação cultural que agita Fafe há quase uma década, a palavra ganha uma semântica de resistência. Aqui, o erro não é um percalço, é o escudo que protege a criação da asfixia estética das redes sociais e das lógicas de mercado que transformam a cultura num produto de conveniência.

Num país onde os holofotes teimam em viciar o foco em certos eixos territoriais, o Ano Malfeito aparece como um manifesto de descentralização orgânica. Não se trata apenas de levar música ao “interior”, mas provar que a vanguarda e o alternativo não precisam de morada nas capitais para terem relevância nacional. Entre a crueza do improviso e a sofisticação de quem programa com o ouvido no futuro, o festival tornou-se um órgão vital para uma comunidade eclética que se recusa a aceitar a “globalização do pensamento“.

Sentámo-nos a conversar com a malta que organiza esta pérola:

Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
© Sérgio Davide

“Mas acabam por ser certas chapadas de esperança no meio de rotinas em que somos conduzidos (…)”

Guilherme Pinto do Santos

Irreversível – O nome do projeto carrega uma aceitação do erro. Num mundo cultural obcecado pela perfeição estética e pelo resultado polido para as redes sociais, o que é que a vossa celebração do “malfeito” (com minúscula propositada) vos permite proteger em termos de liberdade criativa?
Carolina Costa – Protege-nos o lado humano das coisas. O que falha, o que se improvisa, o que não precisa de ser escondido. Salva-nos da pressão de acertar sempre e dá-nos liberdade para criar. No fundo, permite-nos ser quem somos. Há uma autenticidade que só existe quando não estamos a tentar corresponder. Uma identidade que se constrói no processo, nas tentativas, no que corre bem e no que não corre. É aí que aparece o espaço para criar, para experimentar. Sem garantias, mas com intenção. Talvez seja isso que faz com que as pessoas cheguem e sintam: “ok, posso ficar aqui.
Guilherme Pinto do Santos – Lembro-me do momento em que escolhemos o nome, logo houve a percepção dessa piadinha, desse escudo, “ah se correr mal, olha, é malfeito”. No entanto, e na realidade, acho que nunca nos ancoramos nisso. O que aconteceu é que tínhamos uma vontade enorme de fazer as coisas que tínhamos em mente, e fizemo-las com os meios que tínhamos à disposição, encontrando formas menos convencionais de andar para a frente. Isso talvez tenha sido percecionado pelo público com uma certa genuinidade, uma certa transparência na forma como chegamos às pessoas. E claro, depois isso acabou por nos permitir cunhar uma forma ou identidade que, como bem a Carolina disse, foi construída no próprio processo e tem implícita essa carga humana, essa liberdade de experimentar sem nos preocuparmos muito com os padrões instituídos de como 90% dos projetos culturais trabalham a sua imagem. 

Irreversível – Fafe não é um centro nevrálgico de consumo massificado. Como gerem a realidade de operar fora dos eixos principais, de que forma é que essa distância serve de isolamento profilático contra as modas, e que preço pagam contra o centralismo mediático?
Carolina Costa – Fafe não é um centro nevrálgico, mas também nunca sentimos que o tivesse de ser. Estar fora dos grandes eixos não nos limita, desafia-nos a fazer acreditar que a cultura acontece em todo o lado, em qualquer ponto do país, e não apenas nos grandes centros. Não estamos tão presos a modas nem a expectativas, e isso dá-nos espaço para experimentar e para sermos mais fiéis ao que queremos fazer. Em contrapartida, há momentos em que parece que estamos a fazer muito… e a chegar a poucos.
João Marques – Encaramos essa questão de uma forma natural. Operar fora dos eixos principais acarreta consigo um desafio constante, mas não deixa de ter os seus pontos positivos, no meu ponto de vista. Relativamente ao isolamento profilático contra as modas (bela expressão!), julgo que isso nasceu e faz parte da identidade da Malfeito. A nossa atividade pensada e desenvolvida vai sempre de encontro aos nossos ideais e crenças, facto que baliza qualquer tipo de intromissão. 

Irreversível – Programar o que é independente e emergente traz uma ansiedade própria. Quando decidem dar palco a um projeto totalmente fora do radar, o que vos faz arriscar?
João Marques – Uma ansiedade própria, mas revigorante, diria. Considero que mais aliciante/desafiador que programar nomes já estabelecidos, é dar palco a projetos fora do radar, caracterizados por artistas com “fome” de mostrar os seus projetos. É revigorante proporcionar palco a esses artistas e perceber que, no final do dia, eles entregaram tudo o que tinham. A maior reserva e preocupação é, estando do lado da organização e produção, proporcionar a esses projetos plateias condignas, facto que a Malfeito tem correspondido ao longo destes nove anos. 
Guilherme Pinto do Santos – E também sermos fiéis aos ideais que tínhamos há nove anos, ao que nos fez começar isto. Dar esse espaço a novos nomes era uma das nossas vontades mais claras. Isso exige uma atenção constante e quase um exercício de recuo e de modéstia. É muito fácil estas coisas se perderem, pensar um programa para três ou quatro meses e reparares que estás a falhar nisto ou naquilo. Depois pronto, repensa-se tudo. E ainda bem. 

Irreversível – Ser independente em 2026 atrai, inevitavelmente, o olhar de lógicas comerciais que querem capitalizar a aura “cool” do underground. O que é que protege a estrutura do Ano Malfeito de ser descaracterizada?
João Marques – Ser independente está na génese e é uma das características basilares da Malfeito. Como fundador posso afirmar que aí reside a beleza desta organização. O Ano Malfeito não foge à regra, e todos acreditamos que o facto de sermos independentes e genuínos nos acrescenta uma identidade bastante vincada. 
Guilherme Pinto do Santos – Sim, protege-nos esse tal exercício de tentar ter sempre em mente os nossos ideais iniciais. E, depois, uma certa teimosia, quase tipo pirraça (risos). Mas as coisas mantêm-se com uma equipa incrível, que se mantém alinhada e unida durante o ano todo; com uma programação identitária, e é aqui que também entra a teimosia; com uma bela parceria que já não vai para a nova, para o ano também faz uma década, com o Café Avenida; e, acima de tudo, com a malta que aparece, o público que alinha nisto tudo. Porque para o Ano Malfeito acontecer é preciso a Malfeito acontecer. E para a Malfeito acontecer temos de insistir nesta lógica da regularidade, de agitar as coisas com um pulsar contínuo, e precisamos de sentir que as pessoas nos visitam nestes momentos, que de alguma forma isto ainda interessa. Aliás, o primeiro Ano Malfeito foi do género “conseguimos fazer isto durante um ano, tivemos público, agora vamos fazer uma festa para celebrar”. Há aqui também um lado de autoreconhecimento, de nos celebrarmos, e celebrarmos junto daqueles que nos acompanham. Nunca foi só “epá, siga fazer alto festão ROCK em Fafe”. 

“Não creio que haja um indivíduo Malfeito ou uma poção mágica que torne a pessoa num!”

Vitor Silva

Irreversível – Olhando de frente para o vosso cartaz, que diagnóstico fazem ao estado atual da cultura alternativa em Portugal? Onde é que sentem que a música nacional está realmente a ferver e a arriscar, e onde é que estagnou na reciclagem de velhas fórmulas?
João Marques – O atual estado da cultura alternativa em Portugal não está, infelizmente, em contra ciclo relativamente ao que nos rodeia. Todos os dias “nos entra pelos olhos dentro” uma autêntica epidemia que é, na minha perspectiva, uma globalização do pensamento. Para além de nos tornar reféns de uma massificação de pensamento unidirecional, leva-nos a consumir e a gostar todos do mesmo. Neste enviesar do pensamento perde terreno a cultura alternativa e toda a organização que dela depende. Poderá dizer-se, isto sempre assim foi! Acho que está bastante pior. A verdade é que, com o tempo, perdemos o poder de pensarmos e decidir aquilo de que gostamos, sem nos apercebemos. Oxalá esteja enganado porque feliz é aquele que trilha o próprio caminho, não aquele que querem que trilhemos. Ainda assim, continuo a acreditar que cultura alternativa pode ser um farol para os novos tempos, até porque a qualidade está lá. 
Guilherme Pinto do Santos – Pois, é a cultura alternativa, que é o que agora lhe estamos a chamar, que mais pode contribuir para evitar essa pasmaceira e padronização de que falas. Sobre isso, é claro que sim, mas caímos quase todos no engodo. Restam estes laivos de resistência para nos conectarmos com coisas mais reais, mais transformadoras e marcantes. Mas acabam por ser certas chapadas de esperança no meio de rotinas em que somos conduzidos, como bem o João disse. É Spotify, é Netflix, é o “Comprar agora”, é o circo de grande parte dos festivais… Talvez chegue ainda um tempo de mais recusa. Quanto ao resto… qual era o resto? Ah, se está boa, a cultura alternativa. Está muito boa. Continuam-se a fazer coisas imensamente boas e interessantes. Depois há muitos problemas e não são novidade nem difíceis de rastrear. Portugal é um país pequeno, a indústria é pequena, há poucos sítios para tocar, grande parte da programação institucional é inundada pelos mesmos de sempre, das duas ou três agências de sempre, a ditadura dos nomes, das salas cheias, da validação… A imprensa maior não vê, salvo raras excepções, mas repara em muito pouco, quer saber de muito pouco do que se passa no país, e estou a excluir julho e agosto, aqueles meses em que isto vira um parque de diversões. E entramos outra vez nesse ponto da massificação, do impingimento geral, da uniformização de gostos e tendências. Somos muito bons nisso, qualquer dia estou a comer sopa e aparece-me na colher um Buba Espinho a cantelerar. Uma banda qualquer com dez anos, que lança discos, que faz tours internacionais, que já andou a tocar pelo país de cima a baixo não sei quantas vezes, talvez devesse estar a ter outra atenção, a ocupar um outro espaço que para ela é dificílimo de se abrir. E então deixa de ser uma banda emergente, que até é um trunfo para muita narrativa, e passa a ser uma banda do underground, ou independente, ou outra coisa qualquer. 

Irreversível – No fim de cada edição, o que fica no “corpo” da organização? Falem-nos desse balanço… como equilibram a exaustão física que faz querer atirar a toalha ao chão, com o gozo de saberem que criaram um órgão vital para a cultura da região e mesmo do país?
Carolina Costa – O que fica no “corpo” somos nós. Cansados e ainda a tentar perceber tudo o que aconteceu. Fica a inquietação. O corpo inquieto. O silêncio ensurdecedor. Um desassossego que não nos deixa descansar logo. E depois disso, vem o impulso para continuarmos.
Vitor Silva – Não existe tal coisa de “querer atirar a toalha ao chão“. Como alguém diria, “temos que ser duros”. A exaustão já vem tempos antes do Ano Malfeito, para toda a equipa. Durante esses dias estamos todos calejados. No final, há sempre algo para aprender e saber que estamos a fazer algo que nos faz feliz e às pessoas “do outro lado” felizes, só nos dá mais força e gozo de continuar.

Irreversível – Olhando para trás, para as primeiras edições e programações da Malfeito, o que vos tirava o sono e que hoje já não vos preocupa minimamente? E, por outro lado, qual é o novo “monstro” que não estava de todo nos vossos planos originais?
Guilherme Pinto dos Santos – Nos primeiros tempos, a única coisa que me tirava o sono era uma bomba de gasolina chamada Petrobasto, destino certinho de artistas e público depois de concertos da Malfeito. Mas isso acabou. Ela está lá, mas a cerveja não. Hoje em dia, não sei… oh, Vitor, o bowling de Fafe estava nos teus planos originais?
Vitor Silva – Não vou comentar… (risos)

Irreversível – Muitos dos que vão ao Ano Malfeito não vão apenas pelo cartaz, mas pelo espírito do evento. Como definem o “indivíduo Malfeito“? Falem-nos sobre essa construção orgânica de uma comunidade que parece encontrar lugar no vosso evento?
Vitor Silva – Não creio que haja um indivíduo Malfeito ou uma poção mágica que torne a pessoa num. Penso que a comunidade é eclética e isso determina que há um lugar para toda a gente, seja em que evento for. A construção nasce essencialmente das pessoas. Concordo com o espírito, também gosto. Quiçá faremos campismo num futuro. (risos)
Guilherme Pinto dos Santos – Bem, o nosso evento inaugural foi feito totalmente às cegas e sem saber o que esperar, e foi também aí que percebemos que poderia haver um público para isto. Mas público não significa comunidade, essa acho que se foi construindo com base na presença, no contacto, no diálogo entre todas as pessoas que foram aparecendo. Basicamente criamos este espaço comum, este à vontade… Há muita gente que se conheceu ou cimentou laços aqui, que encontrou pontos em comum… Isso numa cidade como Fafe pode ser muito importante, pode salvar vidas (risos). Depois também há muitos artistas que conheceram outros, muito público que conheceu artistas e que até hoje se dão bem. É claro que o público se vai renovando, e ainda bem. Não encontro habitués de 2018 nos concertos em 2026. Ninguém tem de nos aturar eternamente, espero que nem nós mesmos, e é natural que para muita gente isto seja ou tenha sido mais um período da vida. Mas encontro em 2026 gente que em 2018 não tinha idade para aparecer. Isso é muito bonito. 

Irreversível – Como é que a população local de Fafe, aquela que não faz parte da tribo, reage a esta ocupação? Existe um diálogo real ou o festival é uma ilha de vanguarda que aparece e desaparece sem tocar verdadeiramente na rotina da cidade?
Guilherme Pinto dos Santos – Só te falta dizer aí que somos piratas. Eu ainda não percebi essa da ilha, qual ilha qual quê, muito menos de vanguarda! (risos) Isto é uma coisa totalmente popular e aberta, com muito foco no contacto, na relação entre as pessoas. Não é ilha nenhuma. A malta mete-se numa estrada e consegue cá chegar. Quanto à reação das pessoas de Fafe, acho que é boa, mesmo que não se identifiquem com o que promovemos. Talvez se sinta um certo entusiasmo no ar dentro da “tribo” que mencionas. Olhando de uma forma mais transversal… talvez haja quem ainda olhe para isto com um certo cepticismo, outros com aquela curiosidade marota e depois há outros que não fazem a mínima ideia do que se está a passar. Daí também a ideia de nos últimos anos termos estendido a programação do Ano Malfeito a outros espaços culturais da cidade, como o Teatro Cinema e, este ano, acrescentamos a Estação Memória. Temos noção do espaço que ocupamos, dos nomes que promovemos. Fazemos isto o ano todo com programação regular, mas o Ano Malfeito, pela sua tipologia, acaba por ter uma amplitude maior, como é natural. É normal que tenha mais visibilidade. 

Irreversível – No meio de tudo o que o festival assume orgulhosamente como “Malfeito“, o que já se tornou irreversível na vossa identidade?
Vitor Silva – Algo irreversível na nossa identidade é, após o jantar e confraternização, descer até ao balcão e presentear toda a banda/comitiva com um belo bagaço que faz deitar lágrima. É simples, mas é bonito.
Guilherme Pinto dos Santos – Pronto, com esta não digo mais nada. 
João Marques – Mundo! 
Carolina Costa – Estava a ver que não.

Reels:
O que é indispensável na ilha Malfeito?


Páscoa ou Ano Malfeito?

Alexandra dos Unsafe Space Garden no Ano Malfeito

Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide
Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide

Todas as fotos: Ano Malfeito 2026 © Sérgio Davide