A ESRadioPT faz 7 anos e a Irreversível esteve à conversa com o Senhor Director da estação online.

Diz a sabedoria popular que o sete é o número da sorte e que os espelhos partidos trazem 7 anos de azar. Quem anda nas trincheiras da cultura independente sabe que a sorte não paga servidores e que o azar se combate com uma patologia bonita que alguns chamam de teimosia.

A ESRadioPT faz sete anos. Sete anos a funcionar como uma sétima vaga num panorama radiofónico nacional cada vez mais cinzento, formatado por algoritmos que rodam as mesmas vinte músicas até à fadiga auditiva. Contra todas as probabilidades, a rádio online liderada por Ricardo Santiago continua viva, livre e com uma comunidade fiel que se recusa a comer a pastilha elástica sonora do mainstream.

Sendo esta a casa que acolhe as emissões do nosso Irreversível em CRU, o aniversário também é um bocadinho nosso. Para assinalar este fecho de ciclo; que traz uma nova identidade visual a caminho e uma invasão prometida à Socorro, no Porto, em setembro; fomos cravar 7 perguntas ao Senhor Diretor.

Ricardo Santiago | ESRadioPT
Ricardo Santiago | ESRadioPT

“A ESRadioPT deixou de ser algo que faço para passar a ser parte daquilo que sou.”

Irreversível Ricardo, dia 1 de julho a ESRadioPT faz 7 anos. Diz a sabedoria popular que o 7 é o número da sorte, mas quem anda nisto sabe que a sorte não paga servidores nem dita playlists. Olhando para trás, para o dia em que saíste da IFM e decidiste avançar com isto, estes 7 anos foram uma bênção ou uma travessia no deserto que só se aguenta com muita teimosia?
Ricardo Santiago Nestas coisas da carolice há sempre muita teimosia. E ainda bem, porque sem ela dificilmente a ESRadioPT teria chegado aos sete anos.
Claro que houve momentos de travessia no deserto. Houve dificuldades, desafios e dias em que parecia mais fácil desistir do que continuar. Mas, olhando para trás, neste sétimo aniversário prefiro encarar o percurso como uma bênção.
Ao longo destes anos tive a oportunidade de conhecer pessoas extraordinárias, descobrir lugares incríveis e, acima de tudo, encontrar música que provavelmente nunca teria cruzado no meu caminho de outra forma. Isso tem um valor imenso.
Além disso, há um privilégio que nunca devemos dar por garantido: poder dedicar parte da nossa vida a algo que nos apaixona verdadeiramente. A ESRadioPT nasceu dessa paixão e continua a existir por causa dela. Por isso, entre a teimosia e a sorte, diria que estes sete anos foram sobretudo uma enorme bênção.

Irreversível – Existe uma teoria que diz que a vida muda em ciclos de 7 em 7 anos. Agora que a ESRadioPT atinge essa marca e fecha o seu primeiro grande ciclo, sentes que a rádio chegou à sua maturidade e estabilidade, ou estás naquela fase em que apetece mandar tudo ao ar e começar um ciclo completamente novo?
Ricardo Santiago  A maturidade e a estabilidade são conceitos muito permeáveis, sobretudo num projeto independente como a ESRadioPT. Há dias em que sentimos que alcançámos uma certa maturidade, outros em que percebemos que ainda estamos a aprender e a reinventar-nos.
Não sinto necessidade de mandar tudo ao ar e começar do zero. Pelo contrário. Sinto que estes sete anos nos deram bases sólidas para evoluir sem perder a identidade que construímos.
Claro que haverá mudanças. A mais visível será a renovação da nossa imagem. O símbolo que nos acompanhou até aqui vai dar lugar a uma nova identidade visual, capaz de representar melhor aquilo que a ESRadioPT é hoje.
Também estamos a preparar alguns ajustes na grelha de programação, provavelmente depois da silly season. Nada de revoluções, mas alterações cirúrgicas que permitam refrescar a rádio e continuar a surpreender quem nos acompanha.
Mas talvez a novidade mais importante seja outra. Vamos aproveitar as celebrações do sétimo aniversário para levar a ESRadioPT para fora de portas. Em setembro estaremos a fazer rádio em direto da Socorro, a icónica loja de discos, sala de concertos e livraria, do Porto. É um passo simbólico, mas também muito significativo: queremos estar cada vez mais próximos das pessoas, da música e dos espaços que ajudam a construir a cultura alternativa que sempre defendemos.

ESRadioPT | Socorro

“Creio que o nosso maior escudo tem sido precisamente aquilo que muitas vezes é apontado como a nossa maior fragilidade: a independência.”

Irreversível – O número 7 também está associado às 7 notas musicais, a base de tudo o que transmites. Num panorama radiofónico nacional cada vez mais cinzento, onde as grandes estações rodam sempre as mesmas 20 músicas que o algoritmo dita, a ESRadioPT orgulha-se de ser uma espécie de “sétima vaga” que arrisca no indie, no rock alternativo e na eletrónica menos óbvia. Ainda encontras oxigénio e bandas novas em Portugal que te deem pica para abrir o microfone todos os dias?
Ricardo Santiago Sem dúvida. Aliás, creio que estamos a viver uma fase muito interessante da criação musical em Portugal. Há constantemente novas bandas, novos artistas e novas abordagens a surgir, muitas vezes com uma qualidade surpreendente.
Nesse sentido, considero importante que existam espaços onde essa música possa ser ouvida. A ESRadioPT tem programas dedicados à nova música nacional e procuramos dar visibilidade a muitos desses projetos. Isso não significa que tudo entre automaticamente em rotação ou no nosso airplay habitual. Existe sempre um processo de seleção e de curadoria por parte dos autores dos programas, algo que considero fundamental numa rádio independente.
Mas a verdade é que muitas dessas descobertas acabam por conquistar naturalmente o seu espaço na programação. E isso é um sinal muito positivo.
Ao mesmo tempo, não costumo fazer grandes distinções com base na nacionalidade de um projeto. O que me interessa é a qualidade, a criatividade e a emoção que a música transmite. Se uma canção me surpreender, me desafiar ou me fizer sentir alguma coisa, pouco importa se vem de Lisboa, do Porto, de Londres ou de Melbourne.
Por isso, respondendo diretamente à pergunta: sim, continuo a encontrar muito oxigénio. E talvez mais do que nunca. Todos os dias aparecem novas bandas, novos discos e novas ideias que me lembram porque é que continuo a abrir o microfone com a mesma vontade de há sete anos.

Irreversível – Dizem que quem parte um espelho apanha com 7 anos de azar. Vocês andam há 7 anos a partir o espelho da rádio convencional e formatada e, contra as probabilidades, continuam vivos e com uma comunidade fiel. Qual tem sido o vosso escudo contra o azar e contra a invisibilidade a que os projetos independentes na net muitas vezes estão condenados?
Ricardo Santiago Creio que o nosso maior escudo tem sido precisamente aquilo que muitas vezes é apontado como a nossa maior fragilidade: a independência.
Quando decidi criar a ESRadioPT, tomei uma decisão muito simples. A rádio seria exatamente aquilo que eu acredito que uma rádio deve ser: livre, sem amarras, sem pressões externas e sem a necessidade de seguir fórmulas pré-definidas. Desde o primeiro dia que a prioridade foi fazer rádio que me desse prazer ouvir e fazer.
Essa filosofia mantém-se até hoje. Costumo dizer aos colegas que o mais importante é divertirem-se no processo. Porque quando alguém está genuinamente entusiasmado com aquilo que faz, isso passa para o microfone. E quando passa para o microfone, chega inevitavelmente a quem está do outro lado.
Acredito que a nossa comunidade se foi construindo à volta dessa autenticidade. Não somos perfeitos, não temos os meios das grandes rádios, não temos nem somos uma rádio com influencers, mas temos algo que não se compra nem se fabrica: genuinidade, entusiasmo, curiosidade e vontade permanente de descobrir música nova.
Talvez seja esse o segredo para contrariar o azar e a invisibilidade. Nunca tentámos ser a maior rádio. Tentámos apenas ser uma rádio verdadeira. E, sete anos depois, continua a haver pessoas desse lado que valorizam isso.

Irreversível – Fazer rádio online em Portugal, sem o apoio das grandes redes e longe dos eixos mediáticos tradicionais, exige um desdobramento enorme. Tu e a tua equipa têm as vossas vidas e os vossos empregos fora da rádio. Se tivesses de escolher os “7 pecados capitais” ou os “7 maiores nós cegos” que tiveste de desatar para manter a ESRadioPT no ar, qual foi o que esteve mais perto de te fazer desligar a emissão?
Ricardo Santiago Sinceramente, nunca estive perto de desligar a emissão de forma definitiva. Agora, a emissão já se desligou sozinha algumas vezes e isso, para quem está deste lado, é sempre um momento de enorme frustração.
Ao longo destes sete anos tivemos vários desafios técnicos. Alguns foram resolvidos rapidamente, outros demoraram muito mais tempo. Houve um problema em particular que levámos cerca de seis anos a resolver completamente. Foram anos de testes, tentativas, erros e muitos momentos de irritação quando a rádio simplesmente não estava a funcionar como devia.
Claro que isso desgasta. E não são apenas as questões técnicas. Todos nós temos as nossas vidas, os nossos trabalhos e as nossas responsabilidades fora da rádio. Há dias em que aparece aquela preguiça natural, aquele pensamento de que talvez fosse mais simples não fazer nada.
Mas há uma coisa curiosa: assim que me sento no estúdio, tudo isso desaparece. Basta abrir o microfone, escolher a primeira música ou começar uma conversa para me lembrar porque é que isto existe.
Por isso, se tivesse de escolher o maior nó cego destes sete anos, diria que foi encontrar o equilíbrio entre a paixão e o desgaste que um projeto independente inevitavelmente provoca. Porque os problemas técnicos resolvem-se, mais cedo ou mais tarde. O verdadeiro desafio é manter viva a motivação. Felizmente, o bichinho da rádio continua a ser maior do que qualquer dificuldade.

Irreversível – Reza a lenda que ao sétimo dia se descansa. No dia 1 de julho, quando celebrarem o aniversário, vais conseguir descansar e gozar o momento, ou a ESRadioPT já se tornou algo tão dentro da tua vida que descansar está fora de questão?
Ricardo Santiago Descansar? Nem sequer me passa pela cabeça, sobretudo nesse dia. O dia 1 de julho será um dia de celebração, de olhar para trás com orgulho e, ao mesmo tempo, de olhar para a frente com entusiasmo.
A verdade é que a ESRadioPT faz parte da minha rotina de uma forma muito profunda. Ligar a rádio é, muitas vezes, a primeira coisa que faço quando acordo, ainda antes de sair da cama. Ao longo do dia acompanha-me praticamente em permanência, com exceção dos momentos em que estou a gravar ou envolvido noutras tarefas que exigem total concentração.
Ao fim de sete anos, a ESRadioPT deixou de ser apenas um projeto. Tornou-se uma parte integrante da minha vida. E confesso que, por vezes, é difícil perceber onde acaba a ESRadioPT e começa o Ricardo Santiago, ou vice-versa.
Por isso, no dia 1 de julho não haverá descanso. Haverá música, celebração, gratidão e, muito provavelmente, a mesma vontade de continuar a fazer rádio que existia no primeiro dia.

Irreversível – O que é que nesta vossa viagem de 7 anos se tornou absolutamente irreversível?
Ricardo Santiago O que se tornou irreversível foram as pessoas, as experiências e a forma como a ESRadioPT me mudou. Ao fim de sete anos já não consigo imaginar a minha vida sem este projeto. A ESRadioPT deixou de ser algo que faço para passar a ser parte daquilo que sou.

ESRadioPT


*Imagem de capa:
Ricardo Santiago | ESRadioPT
Artwork:
Pedro Silva