A música, quando é verdadeiramente gigante, tem uma forma minuciosa de nos humilhar.
Existe uma espécie de arrogância silenciosa que às vezes se instala em quem passa o ano a ouvir, a tentar catalogar e a arrumar música. Criam-se listas de “Melhores do Ano“, fecham-se os 20 discos internacionais que supostamente definiram esses últimos doze meses, e comete-se o erro crasso de achar que os radares da crítica, por mais atentos que tentem ser, dão conta do recado. Não dão. Nenhum de nós ouve tudo. Ouvimos uma pequena, pequeníssima, parte da anarquia que é editada todos os dias.
E a música, quando é verdadeiramente gigante, tem uma forma minuciosa de nos humilhar.
Assumo o erro com a honestidade intelectual que também nos guia na Irreversível. “Alligator Bites Never Heal“, da Doechii, passou ao lado dos 20 eleitos internacionais da Irreversível em 2024. Não esteve lá. Nem perto. Sem qualquer menção.
A minha redenção não veio através de um comunicado de imprensa nem recomendado por um algoritmo. Veio quando parei para ver a sua apresentação no Tiny Desk .
Ali, num cenário despojado, desmascarando até truques visuais de Hollywood, sem as batidas hiper-produzidas que inundam os TikTokes, Doechii estilhaçou qualquer preconceito. O que assisti foi a um exorcismo lírico, uma liturgia amparada por cúmplices perfeitas. A transição milimétrica entre raiva calculada, o desabafo sufocante sobre saúde mental e dependências, ou a perda absoluta de controlo sobre si, abateu-me com a força de um sismo profundo e devastador. Aquela merda é avassaladora.
Doechii não precisa de caixas de ritmos agressivas para ser violenta. A sua caneta, é a arma mais afiada do rap contemporâneo. Ao vivo, as suas vulnerabilidades tornam-se esculturas. Ela cospe palavras cáusticas e fodidas contra o que tiver de ser, a começar pelos demónios da sua própria cabeça… sempre com um sorriso na cara. Subverte slogans corporativos de beleza para falar de instabilidade psicológica e surtos bipolares, até se transformar num “dying sunflower leaving a trail of seeds”. É natural. É rude. É desconfortável. É, acima de tudo, real como o caralho.
O impacto tardio deste projeto, que acabou por explodir na aclamação em galas de prémios e num contágio global, prova que a grande arte recusa a digestão rápida dos dias. Dizer que “Alligator Bites Never Heal” é um dos discos mais marcantes e provocantes do século XXI pode soar a uma hipérbole saída do calor do momento, mas a verdade é que o tempo encarregar-se-á de o provar. Num género musical cada vez mais pasteurizado e esterilizado, reduzido a plástico macio e cantos arredondados, o que Doechii aqui fez foi devolver ao Hip-Hop; de uma forma bastante multidisciplinar; o gume afiado, a teatralidade psicológica e a urgência que há anos não se viam e ouviam com esta densidade. Este projeto não precisa de ter estado numa lista para garantir o seu lugar na história recente; o estatuto de clássico já ninguém lhe tira.
A soberana do pântano deu(-me) uma lição de como a autenticidade e o talento puro ainda conseguem quebrar as barreiras da distribuição. E a nós, na Irreversível, resta-nos a humildade de ouvir, aplaudir e agradecer o facto de a música ainda nos conseguir desarmar desta maneira.
Que puta de disco.

Foto de capa:
Doechii @ Tiny Desk © Alante Serene
