Pedro Melo Alves assina a criação, mas o espectáculo abre mão da ideia de uma obra inteiramente fechada.
No final daquilo a que assisti, perguntei, quase em exclamação: “Como vou eu escrever sobre isto que acabou de acontecer?” Ainda não sei. Mas começo pelo princípio… a relação entre os telemóveis e a música ao vivo tornou-se, nos últimos anos, um campo de batalha. Ecrãs erguidos durante todo o concerto, a necessidade de registar tudo, o espectador convertido em produtor de conteúdo. Multiplicam-se os apelos a uma experiência mais presente e menos dependente do que carregamos no bolso. No Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Pedro Melo Alves foi pelo caminho oposto. Ninguém pediu para desligar ou guardar o que quer que fosse. A entrada em ΞllllllΞ (lido “imm”) faz-se através dos telemóveis.
Um QR code dá acesso a uma aplicação que acompanha todo o espectáculo. O público responde a perguntas, envia mensagens, envia imagens, interacção directa. Uma interacção digital. Porém, os conteúdos são recolhidos, transformados em tempo real e incorporados na componente visual. O que nasce nos telemóveis regressa ao espaço físico sob outra forma, e a experiência deixa de pertencer apenas a quem está naquela espécie de palco travestido.
Existe uma ironia nisto. Numa altura em que a tecnologia é apontada como factor de afastamento entre público e espectáculo, ΞllllllΞ usa o dispositivo para aproximar e para criar em conjunto. O telemóvel deixa de ser só um instrumento de consumo e entra no processo artístico.
Foi a estreia deste projecto transdisciplinar, e é difícil arrumá-lo numa definição na sua dimensão completa. Não há nada, que eu conheça, que se lhe compare. Música experimental, electrónica, imagem, luz, performance e participação do público, coexistem num sistema em transformação.

A música nasce de uma orquestração entre instrumentos acústicos e electrónicos, e as imagens crescem com ela. Dei por mim sem saber se era a projecção que mudava o que eu ouvia, ou o contrário. Cruzam-se e alteram a percepção uma da outra.
Há estrutura, composição e direcção artística, mas há também lugar para o que só acontece em cada espectáculo. As imagens enviadas pelo público e a sua transformação em directo introduzem variáveis que tornam cada apresentação irrepetível.
Pedro Melo Alves assina a criação e aceita que ela seja alterada por aquilo que lhe é exterior. O público é chamado à construção sem controlar o destino dos seus contributos, e é aí que o espectáculo, e o seu criador, arriscam mais.
Isto obriga uma reflexão pós-humanista sobre o humano e a máquina, sobre a vontade de controlo e a inevitabilidade da transformação. Não precisa de ser dita em teoria, está inserida na mecânica do espectáculo e no modo como o público é tirado da posição confortável de observador.
Não é um espectáculo para quem procura referências familiares ou narrativa linear. Pede disponibilidade para a sobreposição de linguagens e para a ausência de respostas imediatas. Nem tudo tem de ser descodificado para fazer efeito. Não obstante, o efeito em mim foi forte. Como uma experiência singular de uma nova estirpe.
Fica uma pergunta. Ou várias, que esta obra não deixa que fique apenas uma.
Durante a peça, o público deixou de ver a obra e passou a fazer parte dela. Então, quem assina uma obra que nunca fica acabada? A obra já não é um objecto, é um acontecimento. Mas se vive de tudo o que lhe chega, se cada telemóvel lhe acrescenta qualquer coisa, quanto pode ela mudar antes de deixar de ser a mesma? E o que resta de uma obra quando já nada nela é definitivo?
Talvez reste exactamente isto, perguntas. Talvez a provocação, foda-se, seja mesmo essa.
Saí de lá com a sensação de que algo estava a começar. E que eu tinha estado lá.
Foto de capa: ΞIIIIIIΞ © A. DELHAYE
