Na Noite dos Reis da Bazuuca, o Homem em Catarse deixou de ser um indivíduo só. Um relato sobre uma nova expiação, partilhada com Carolina Gomes e José Rios.

Esqueçam a treta do eremita. O Homem em Catarse nunca foi sobre o silêncio bucólico das serras, foi sempre sobre o barulho da solidão. O Afonso Dorido anda a queimar asfalto há mais de uma década, e quem o viu no início; quando a Viagem Interior era apenas um gajo e uma guitarra a disputar espaço com a indiferença das paredes; percebe que este projeto nunca foi uma escolha estética, foi uma condenação.

Foram anos a fio a carregar material em palcos onde o público era, muitas vezes, apenas o eco. Do Minho às Beiras, o Afonso construiu um bunker de loops porque era a única forma de não se desintegrar sozinho. Mas a contenção tem um limite, e o minimalismo, a certa altura, deixa de ser suficiente para conter a pressão interna.

O percurso do Afonso é uma sucessão de decisões desconfortáveis. Quando toda a gente esperava que ele se tornasse o próximo compositor ou cantautor de serviço; ou qualquer merda de definição que lhe queiram dar; ele enfiou-se no Gerês para parir um disco que não seguia agenda nenhuma, mas que expunha a anemia do que nos rodeia. Depois, foi para as cidades enfiar-se em clubes onde os ruídos e conversas eram demasiado, um insulto, para a sua delicadeza acústica. O Afonso nunca soube estar quieto no lugar que supostamente lhe reservaram. O Homem em Catarse não é uma carreira, é uma sabotagem deliberada das expetativas. E, na Noite dos Reis da Bazuuca a fuga; a sabotagem; foi para a frente, a fundo e sem cumprir qualquer norma de segurança.

A presença da Carolina Gomes e do José Rios não aconteceu para preencher um formato banda ou para validar uma qualquer estética visual. Foi um golpe de estado. Com a Carolina e o José, o som deixou de ser uma aguarela sobre a paisagem e passou a ser o ácido que a corrói. Aquilo a que assistimos na Noite dos Reis da Bazuuca foi o Afonso a abdicar do controlo absoluto para se deixar atropelar pela dinâmica de quem sabe que o rock não se faz só com boas intenções. Não sei quem ficou mais surpreendido, se nós na audiência, se eles em cima do palco.

O formato trio deu ao Homem em Catarse a licença para o desequilíbrio e para a imperfeição. Não houve o compromisso de preencher o vazio com o virtuosismo solitário. A guitarra do Afonso, dantes educada e polida, agora lacera e desfigura. É esta a catarse que interessa, a que não limpa nada, a que não vem purificar, mas sim aquela que deixa tudo encardido.

O Afonso Dorido aparentemente cansou-se de ser o guia turistico do interior, do pessoal ao geográfico, para passar a ser o gajo que te cospe o som na cara. Esta noite não serviu de palco para o diletantismo, serviu de ringue. E, foda-se, ver o Homem em Catarse a sujar as mãos é alimento.

Desta vez, no fim, não ficou o gajo sozinho a olhar para os pedais, ficou o rasto de uma nova Catarse.
E quem não ouviu, que se foda.

Homem em Catarse | Noite dos Reis da Bazuuca © irreversível
Homem em Catarse | Noite dos Reis da Bazuuca © irreversível