IBSXJAUR actuaram no CRU – Espaço Cultural e a Irreversível aproveitou a oportunidade para conversar com a dupla.
Há projectos que nos entram pelos ouvidos à primeira partilha e recusam-se a sair da nossa cabeça. Com os IBSXJAUR foi exatamente assim. Desde o impacto do primeiro single até à densidade do disco de estreia, a assinatura da dupla transmontana ficou gravada no radar da Irreversível.
Faltava o teste da carne, o confronto físico. Por ironias de agenda, desencontros geográficos ou simples rasteiras do tempo, a oportunidade de os testemunhar ao vivo foi sendo adiada. Até à noite de véspera do 25 de Abril, no CRU – Espaço Cultural, em Vila Nova de Famalicão.
Se o registo de estúdio já deixava adivinhar que estamos perante uma das boas surpresas da actualidade undergound nacional, o palco destrói qualquer barreira que ainda podia existir. Ao vivo, os IBSXJAUR não se limitam a replicar o disco, eles superam-no. O som ganha uma dimensão física. Há uma eletricidade e originalidade crua no live deles que o formato gravado, por mais fiel que seja, nunca conseguirá prender entre quatro paredes. Eles, ao vivo, são um espetáculo puro de uma mente em desalinho, sem filtros ou cedências ao óbvio.
Depois da descarga no Cru, sentámo-nos com a dupla para tentar descodificar esta engenharia. O resultado é a conversa que se segue, directa, por vezes desarmante e, à imagem deles, absolutamente livre.

“O meu público são as pessoas demasiado tímidas para ir ao balcão pedir ketchup no restaurante (…)”
Irreversível – Actuaram no Cru em Vila Nova de Famalicão na véspera do 25 de Abril, uma data que celebra a liberdade e a quebra de amarras. Olhando, ou ouvindo (risos), para a vossa sonoridade, sentem que a vossa música é, por si só, um acto de libertação ou um grito de resistência contra a saturação do óbvio no panorama nacional?
Jaur – Quando soubemos a data, achava piada dizer que era uma espécie de before party do 25 de Abril. Mas, claro, a nossa sonoridade é em si um acto de liberdade.
IBS – As minhas origens musicais vêm das free parties francesas, onde a música é apenas um acto de libertação. Aquilo a que chamam um grito de resistência são, para nós, as fundações da nossa música. O nosso som é música livre, festa livre, fazemos dela o que queremos, e vocês farão dela o que quiserem.
Irreversível – Vila Real é o vosso epicentro e são hoje peças fundamentais na dinamização de uma nova cena no Norte. De que forma o isolamento do “interior” funcionou como um filtro positivo para a vossa estética, permitindo-vos criar sem a poluição das modas do litoral? Sentem que ao fazerem-no estão finalmente a quebrar o estigma do centralismo, provando que a urgência e a qualidade técnica não dependem de um código postal de Lisboa ou Porto?
Jaur – já pensamos nisso, sobre o impacto que tem, ou não, o facto de estarmos completamente isolados fisicamente das grandes cidades. E podemos pensar em primeiro lugar que sim, mas acho que não tem mesmo nada a ver. Somos a geração internet, hiperconectados, somos sempre confrontados às modas, ao que acontece, a tudo e mais alguma coisa. Acho que é mesmo uma história de gostos e também de escolhas. O impacto vem na maioria de com quem andas, e isso não depende das cidades mas sim das influências que deixamos as pessoas terem sobre nós. Talvez existam mais estereótipos, mas vai dar ao mesmo. O impacto depende muito daquilo que se deixa fazer. E outra coisa, o nosso setup é super light, quer dizer que quando vamos a Lisboa, levamos o material para fazer música, o resultado é o mesmo, não deixamos de ser fiéis à nossa música. Aqui temos é mais espaço, e mais espaço dá-nos mais conforto.
Isso dito, claro que qualidade não tem a ver com um código postal. Em Vila Real há projetos incríveis – como AGUAPURGA ou também L Pertués – e no resto do país também. É preciso ter curiosidade para perceber isso.
IBS – Mesmo que estivesse nas grandes cidades, faria exatamente a mesma coisa com a mesma qualidade. Por isso, mais vale ficar onde eu realmente quero estar – isso não vai mudar nada – e, como dizem, “quebrar o estigma do centralismo”… mas, na verdade, não penso nisso quando faço música.
Irreversível – Dizem que os vossos BPMs são a representação real do que se passa nas vossas cabeças. No palco, essa velocidade torna-se quase sufocante, mas, simultaneamente, catártica. Esta busca pela “Sanity” através do som é uma tentativa de encontrar ordem no meio do ruído mental ou é apenas a aceitação de que a nossa realidade actual é, de facto, acelerada e ruidosa?
Jaur – SANITY é criar um espaço de liberdade. Quebrar as expectativas e estar alinhado com isso.
Por uma razão que me é completamente estranha, as rítmicas complexas de baterias são o que me permite entrar num estado de relaxação intensa que nenhuma forma de yoga consegue. Não sei porquê. Sou obcecada. Sinto-me alinhada.
IBS – O nosso som retrata a nossa realidade da forma mais exata possível. O que se passa na minha cabeça também se passa na cabeça dos outros. A música que fazemos é aquilo que mais fielmente reflete o nosso tempo através do nosso espectro. Quando as pessoas vêm ouvir o nosso set ao vivo, vêm apenas ouvir a própria mente em estado puro. Se fizesse música de outra forma teria a sensação de ser um grande mentiroso, estás a ver? Quanto mais dura for a época, mais hard a música tem de ser, senão, como é que compenso depois?
IBSXJAUR © Sérgio Davide
“Na verdade, ninguém se diverte verdadeiramente no digital.
No mundo real, sim.“
Irreversível – A vossa música tem uma génese muito DIY, feita entre quatro paredes. Como tem sido a experiência de ver essas texturas eletrónicas e experimentais transformarem-se em algo físico e partilhado, como aconteceu no CRU? O que é que o público vos devolve que o estúdio não consegue dar?
Jaur – Vida. Suor, sorrisos e gritos. Imprevisto, e MUITOS abraços. Estando isolados numa aldeia, criamos a nossa música imaginando como pode soar em palco, porque é o grande destino dela, e até agora, nunca nos desiludiu. Para mim música sem live show não tem sentido, os concertos são o momento onde me sinto mais livre de ser quem eu sou.
IBS – Aqui fazemos música para pessoas reais, seres humanos verdadeiros – não estatísticas. O live é incrível, eu gosto das pessoas, as pessoas gostam do concerto, toda a gente fica contente.
Foi assim no CRU.
Na verdade, ninguém se diverte verdadeiramente no digital. No mundo real, sim.
Irreversível – A entrevista ao Rimas e Batidas e o selo da Mosto mostram que o vosso som está a furar bolhas. No entanto, a vossa proposta não é “fácil” de digerir à primeira audição. Como é que vocês definem o vosso público? Sentem que as pessoas estão a precisar de algo que as desafie e as tire do conforto do algoritmo?
Jaur – Não sinto que a nossa música seja tão difícil de digerir à primeira audição. Tem é só de chegar a essa primeira audição (risos). Digo isso porque recebemos centenas de mensagens a dizer: “isso não é o que eu ouço habitualmente, mas gosto“, isto depois de terem descoberto a ECHO – que é se calhar uma das músicas menos “evidente” do nosso álbum. Mas a curiosidade está lá. Sentiram alguma coisa, e eu vejo o impacto que lhes fez.
Cada vez que a ECHO passa na rádio, temos montes de Shazam. Isso faz com que acredite que não é uma história de género musical. As pessoas sentem o que queremos transmitir, e nós estamos felizes por isso, quando sabemos que nem sempre se consegue atingir um ouvinte que não liga a outro estilos de música.
Aliás, acredito que as pessoas querem descobrir coisas novas, digo isso porque a primeira vez que as pessoas se cruzaram com a nossa música, montes de gente reagiu a dizer que querem isso, ainda mais em Portugal, feita por residentes de Vila Real! Essas pessoas só não sabem como descobrir projetos, a educação musical perde-se muito e a culpa não é deles.
IBS – O meu público são as pessoas demasiado tímidas para ir ao balcão pedir ketchup no restaurante, mas que ao mesmo tempo se entregam de forma brutal nos nossos lives. Acredito realmente que as pessoas querem este tipo de música. Se alguns ainda não estão habituados, não há problema, com o tempo vão afinar os ouvidos e perceber, com ou sem algoritmo… As pessoas não têm de sair dessa zona – porque nunca o fizeram. Tomamos nós a responsabilidade de levar este projeto para a frente, e caberia aos profissionais assumir; que antigamente assumiam; apresentar algo novo. Se houver quem queira apenas fazer sempre a mesma coisa, isso é problema deles, nós inovamos, é só isso, percebes?
Irreversível – Sim, claro!
Irreversível – Apesar da densidade instrumental e da velocidade, há uma mensagem nas vossas letras que parece vir de um lugar íntimo e profundo. Num som onde as distorções e os BPMs dominam, a palavra é para ser descodificada ou é apenas mais uma camada de textura no meio do vosso set?
Jaur – As letras que escrevo são cheias de poesia e de mensagens. É a parte mais difícil e mais agradável, é sempre um enorme desafio mas é o que gosto mais. ADORO deixar mensagens escondidas no meio disso tudo. Sei que o sentido das minhas letras nem sempre é óbvia e merece uma atenção particular para ser descodificada, mas quando acaba por o ser, é como levantar a cortina sobre um universo paralelo. Às vezes é por pudor. Às vezes faço mesmo porque gosto.
IBS – É como a Bíblia: há vários níveis de leitura, e há quem não perceba nada, mas faz-lhes bem na mesma.
Irreversível – O que é Irreversível?
Jaur – A calvície…
IBS – A carne cozida, não dá para voltar a pôr a carne crua.

Capa:
Foto IBSXJAUR © Sérgio Davide
Artwork © Pedro Silva


