Para mim, sempre houve um vínculo afetivo entre os lugares e as músicas. Não consigo dissociá-lo, e, quando viajo, as memórias mais duradouras e intensas são aquelas em que a música esteve presente. A música está ad aeternum na minha mente.
Fazendo o percurso da praia de Valadares à praia da Aguda, um sítio de uma outra dimensão acrescenta serenidade a quem por aquelas bandas passa. Falo da Capela do Senhor da Pedra. Esta obra religiosa edificada no final do século XVII, terá sido construída junto a uns rochedos que alegadamente todos os dias eram aclarados de modo enigmático por uma luz misteriosa. É um lugar onde não falta espaço e onde reina o silêncio. De costas para o mar, a Capela do Senhor da Pedra dá a sensação de boiar nas águas frias do Atlântico. Alguns telemóveis e máquinas fotográficas, mas também muitos viajantes compenetrados neste lugar simples e espantoso. A falta de música para que a viagem ficasse mais completa era uma evidência, mas tinha a profunda convicção que em casa encontraria algo que suprisse e compensasse essa ausência e encaixasse harmoniosamente naquela pausa poética tida em Miramar.

Chegado a casa sentei-me na varanda à luz de um sol radioso e deixei-me levar viajando pela costa portuguesa escutando a esplêndida Virginia Astley. A sonoridade da compositora inglesa é sublime. O canto dos pássaros, o barulho da água, o piano, o encantador som dos sinos da igreja…
*Foto de capa: Capela do Senhor da Pedra © Miguel Pinho
Vigésima terceira edição d´ “As sonoridades das viagens“ na Irreversível.
Miguel Pinho é um reconhecido apaixonado por música e autor publicado sobre viagens.
Conhecendo estas premissas, a Irreversível lançou-lhe o desafio de somar as duas, a música e as suas viagens, numa rubrica para Magazine.
