Subitamente, a última noite de Nascentes apaga-se e caímos no sono descansado de olhos cheios de estrelas.
Num dia altamente preenchido, de saudade antecipada e alimento que nem sabíamos ter em falta nos ossos que nos erguem, Fontes viu a sua prole crescer.

Do 8 ao 80, misturaram-se pessoas sonhadas para esta realidade de comunhão e um amor comum que levita e prende-se às nuvens para que seja avistado no alto da serra. Miúdos e graúdos satisfazem corações foliões, entre danças, brincadeiras, música ouvida e sentida, comer e beber, num carrossel intenso de vida a saber ser vivida. As linhas de rugas de quem já conta muitos anos, escrevem a sebenta de quem lhes admira e lê o rosto feliz nestes dias que enchem Nascentes.
A horta divina da Dª Maria dos Anjos viu florescer a banda em que se torna lei a química entre dois músicos que tocam sensibilidades. Lavoisier, cantou-nos notas doces de pássaros encantados com cores de flores que rebentam. A química aqui entende-se fácil quando os nossos olhos descansam na sombra da horta, onde os cabelos das árvores enaltecem os laços ternos entre amigos, companheiros, pais e filhos e avós.
O sol teima em fazer-nos corar, assim como o que nos liga uns aos outros que, em vista mais longínqua, parece tratar-se de um campo de morangos colado no mel das canções. Este convívio de terra fértil fez-se de química e não de químicos.

Mesmo ao lado, após findar este início de tarde silvestre, ouviu-se o chocalho que nos indica a direcção a tomar. Um palco de estacas de madeira, uma bateria, teclas, botões chamadores de atenções e um músico multifacetado. Vurro fez crescer duas mãos na cabeça para que as suas se cansassem nas teclas bilaterais. A máscara que lhe sustenta este esquema dos pratos da bateria serem tocados por chifres é também a imagem que marca os sorrisos de quem lhe dança o ritmo acelerado de um bom rock and roll. Chocalhos a servirem de adereço nos tornozelos e cotovelos, fizeram com que quem ouvisse ao longe acreditasse que estaria um palco preenchido de músicos, quando na verdade estava um animal de palco a tocar por todos os músicos que cresceram dentro dele.

O calor ainda aceso do rock and roll levou-nos a um ponto refrescante para assistir de novo a peso musical trazido da Turquia.
O palco elevado permitiu que a sagrada música baixasse até ao rio Lis, onde corpos suados davam cura ao calor que se fez sentir. As margens do Lis fizeram-se ainda mais estreitas para que se abraçassem e se envolvessem num ritual leve de dança a toque de água. A dança compôs-se por toda a gente que sente a música, independentemente da idade, na senda de viver em profundidade e sugar a medula da vida, com pés na água e rostos a serem lavados pelo sol.
Lalalar aqueceu corpos e corações e serviram de entrada para uma noite que viria a ser um verdadeiro elogio à degustação.
Za! & Ia TransMegaCobla partem com o sossego e acendem chamas em nós. Entraram-nos, mexeram-nos e revolveram-nos com cores fluorescentes e batuques que despertam o que está da pele para dentro. Fazem de pouco mais de uma hora de concerto, um circo, como se vida tivesse que ser vivida num trapézio de faca nos dentes. Da euforia são feitos os dias neste trapézio que tão depressa nos mostra a paisagem de baixo para cima, como o inverso. Deixamo-nos levar por instantes pela possibilidade de viver numa utopia de cores gritantes, trapézios que nos convidam, limbos estreitos que piscam o olho ao risco e malabares a ferver. E quando a vida estiver pintada a cores demasiado neutras, temos sempre uma memória agitada e com pinceladas bem berrantes para lembrar que a vida também pode ter rasgos utópicos.
Na mesma noite, e mesmo ainda antes de nos servirem a sobremesa mais esperada sobre as margens do Lis, Dolu, deu-nos a provar o sabor de um prato psicadélico turco. Se Dolu se traduz em português por “completo“, assim o sentimos no corpo que foi serpenteando ao som cálido que adentrou a noite.
As luzes marcantes que anunciam a entrada de um saxofone ao comando do seu mestre, Cabrita, filtram-se na folhagem da moldura do palco Nascentes.
A terra apagada antes de os sons escorregarem pelo saxofone fora, deixa ver o céu cintilante que nos puxa brilho aos olhos.
Notas de silêncio antecedem o som que vai encher a noite que já vai alta e alça a lua grávida.
A noite não se quis monologar e assim puxou com as suas mãos as primeiras notas de Cabrita.
A antítese de vontades dividem quem ouve o saxofone falar, ora de olhos abertos para que os olhos filmem, ora de olhos fechados para que os olhos sonhem. Blues chorados pelas nuvens caem sobre as cabeças dos que se deixam sonhar neste jardim à beira-rio.
A noite, a lua e as notas musicais saciam a sede provando nuvens ao toque sensível de Cabrita.

A noite alta que começou com notas de silêncio, rapidamente encheu de murmúrios os nossos cárdios. Ainda ressoam sob a relembrança de uma noite cheia de lua, de nuvens em gotas de Blues e espelho dos nossos olhos, o Lis.
Subitamente, a última noite de Nascentes apaga-se e caímos no sono descansado de olhos cheios de estrelas.
Luz da manhã nasce e cumprimenta Fontes com leveza de um Verão jovem.
A carta de despedida selada com um beijo foi escrita por Jhon Douglas que anuncia as saudades que já se sentem. Rapaz do mato conhece o perigo dos vícios da modernidade que são o abismo de quem quer estar constantemente actualizado. Por isso mesmo, voltar às raízes, que bem pode ser a Amazónia como as Fontes, é a virtude de nos desactualizarmos e abrirmos mão das gaiolas falantes e cantantes que aprisionam, e andar de pé descalço sobre o rio. Artista destemido de viver o apelo selvagem não teme o bicho estranho e por isso não se curva para agradar!
Na hora do adeus as mãos da saudade já se sentem quentes para as trazermos connosco e afagarem nos dias frios de nostalgia. A água leva rio abaixo o vermelho dos nossos corações que já lhes pertencem.
Até já!



Ah! Fontes, não leves a mal se nos vires chorar no fim. São as saudades de quem te amou e que agora deixam o teu caudal cheio para que possas entender o que vai no nosso coração.
Conteúdo escrito pela criadora de conteúdos Raquel Folião

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