No Oliva Creative Factory o tempo desacelerou mesmo e criou espaço para uma vivência plena da maioria das propostas apresentadas pela organização do festival.
“Get Up On Your Feet And Dance”, título da faixa de abertura do disco “Soul Jam” dos Wraygun, poderia muito bem ser o mote para o que se passou a seguir… e a seguir dançou-se para o mundial com o distinto patrocínio de três músicos brilhantes e profundamente conhecedores do seu métier. A plateia, musicalmente ecléctica e com uma postura à altura desse atributo, deixou-se contagiar sem o mínimo de resistência por uma abordagem contemporânea, urbana, exótica e extremamente cosmopolita que abre com a maior das naturalidades a porta das pistas de dança ao jazz. Já tinha lido algumas coisas sobre os Yakuza e picado uma ou outra música, mas confesso não lhes ter prestado a devida atenção. Depois do que vi e ouvi percebi que ando a comer sono pesado e que às vezes me esqueço de sair da minha zona de conforto sonoro. Fiz o acto de contrição ainda durante o concerto com uma vídeo chamada para um amigo que vive no Canadá, baixista talentoso e de mão cheia, ele sim com especial predilecção por estes universos sonoros, descrevendo o que estava a presenciar como um momento de celebração brilhante. E por falar em baixista, se o dos Yakuza tivesse um cromo de baseball só dele, valeria uma fortuna!

E eis-nos chegados ao momento que pessoalmente aguardava com uma expectativa tremenda… tropecei nos Sunflowers algures em 2016 e estou agarrado à cena de tal maneira que às vezes me imagino a arrumar carros numa dimensão paralela, com a vida desgraçada, sempre atazanado pelo próximo chuto. O último disco fez-me afundar no tapete ao estilo do Renton no primeiro Trainspotting… se é que alguma vez houve mais algum. Ainda não tinha conseguido vê-los tocá-lo ao vivo e a ocasião alinhava-se na perfeição para fazer o ladrão. E não é que quando a cena estava a bater de caraças e ia começar outra vez a afundar, me puxaram o raio do tapete? Ainda não consegui perceber se estava de tal forma mergulhado no concerto e não dei pelo tempo a passar ou a se banda foi convidada a poupar no alinhamento. Espero conseguir apanhá-los num futuro próximo. A avaliar pela amostra consistente e musculada será um reencontro digno de antologia.

Em conversas sobre festivais que vou tendo aqui e ali com alguns amigos, recordo com alguma nostalgia a altura em que os concertos aconteciam todos no mesmo palco. E essa conversa voltou a acontecer depois da atuação dos Sunflowers. Apesar de existirem três palcos nesta edição do PSR não houve lugar para a esquizofrenia dos grandes festivais com dois ou três concertos em simultâneo, esquizofrenia essa que por vezes nos coloca perante dilemas absurdos. No Oliva Creative Factory o tempo desacelerou mesmo e criou espaço para uma vivência plena da maioria das propostas apresentadas pela organização do festival.
De volta às fichas e aos copos de cerveja, decidimos a determinada altura fazer um all in que nos rendeu uma conversa que durou os dois concertos que antecederam os Linda Martini e ainda deu tempo par ir ao carro descansar o esqueleto durante uns vinte minutos. Entrámos na Sala dos Fornos e ficámos de imediato com a sensação de que alguém se esquecera de os desligar… do nada colocam-nos uma cerveja na mão e estivemos por ali entretidos enquanto a equipa dos Linda Martini acabava de passar tudo o que estava em cima do palco a pente fino. As luzes baixaram, o público entrou em histeria e a ovação da noite fez-se ouvir para lá de São João da Madeira…

“Eu nem vi que eu sem ti sou só eu sem ti”… e o que seríamos nós sem eles? Outra coisa qualquer ou até a mesma coisa. Nos últimos doze meses esta foi a banda que mais vezes vimos em concerto tendo este sido o mais memorável. Estão numa forma invejável e são uma máquina de debitar hinos uns atrás dos outros, só que desta vez a responsabilidade de um momento tão explosivo não foi sua. Durante a interpretação de “Amor Combate“, aquelas duas almas que encontrámos umas boas horas antes logo a seguir ao concerto dos MДQUIИД conseguiram ofuscar aquela parede sonora quase intransponível de um modo arrebatador. Ouvia-se “o chão que pisas sou eu”. Ele ajoelhou-se com uma solenidade que nos pareceu despropositada para o momento, agarrou-a pela mão, enfiou-lhe um anel no dedo e gritou-lhe um pedido de casamento ensurdecedor. E daqui em diante foi uma festa indescritível…

*foto de capa © Joana Sousa – Shootsounds / Party. Sleep.Repeat.
Conteúdo escrito pelo criador de conteúdos Gonçalo Morgado

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